15 de fev. de 2016

Curso de Produção Literária 2016: inscrições abertas!


As inscrições para a sexta turma do Curso de Produção Literária já estão abertas!

Atendendo a pedidos, neste ano serão oferecidos dois programas: Poesia, às segundas-feiras, e Prosa, às quartas-feiras.

As aulas têm início no mês de março e serão ministradas apenas no período noturno, das 18h30 às 20h30.

Confira os programas do Curso de Produção Literária 2016 nos links abaixo:


Para efetuar sua inscrição, procure a secretaria da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa" munido de documento de identidade e preencha o formulário de matrícula.

Casa da Cultura
"Luiz Antônio Martinez Corrêa"
Rua São Bento 909
Centro
Araraquara - SP
tel.: (16) 3333-1159

Mensalidade: R$ 50,00 por programa.

Serão oferecidas bolsas integrais aos alunos que comprovarem dificuldades socioeconômicas (limitadas a 20% das vagas totais).

Para maiores informações, entre em contato com a Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa", deixe um comentário aqui mesmo no blog ou envie um e-mail: prodlit@hotmail.com.

Não perca!

Produção Literária 2016: Programa de Prosa

MARÇO
02/03 – Abertura do Programa de Prosa
09/03 – Práticas de desbloqueio criativo
16/03 – Premissa
23/03 – Concisão
30/03 – Verossimilhança

ABRIL
06/04 – Formatação; práticas de composição
13/04 – Prática, leitura & interpretação
20/04 – Revisão; Concursos literários
27/04 – Prática, Leitura & interpretação

MAIO
04/05 – Personagem e Funções de personagem
11/05 – Ponto de Vista
18/05 – Caracterização de personagem
25/05 – Prática, leitura & interpretação

JUNHO
01/06 – Prática, leitura & interpretação
08/06 – Prática, leitura & interpretação
15/06 – Protagonista & Incidente Incitante
22/06 – Antagonista & Conflito; Ritmo; Tensão & alívio
29/06 – Dimensões de personagem; Rosa dos Ventos

JULHO
06/07 – Prática, leitura & interpretação
13/07 – Prática, leitura & interpretação
20/07 – Prática, leitura & interpretação
27/07 – Prática, leitura & interpretação

AGOSTO
03/08 – Emoção Estética
10/08 – Prática, leitura & interpretação
17/08 – Prática, leitura & interpretação
24/08 – Revisão geral
31/08 – Personagem & Incidente Incitante

SETEMBRO
07/09 – Feriado: Independência do Brasil
14/09 – Prática, leitura & interpretação
21/09 – Estrutura; Trajetória; Evento; Tipos de Evento
28/09 – Ideia & Contraideia

OUTUBRO
05/10 – Valor & Cena; Composição de Cena
12/10 – Feriado: Nossa Senhora Aparecida
19/10 – Prática, leitura & interpretação
26/10 – Níveis de Conflito; Forças Antagônicas

NOVEMBRO
02/11 – Feriado: Finados
09/11 – Desejo Inconsciente
16/11 – Crise, Clímax & Resolução
23/11 – Revisão geral
30/11 – Encerramento do Programa de Prosa

Produção Literária 2016: Programa de Poesia

MARÇO
07/03 – Abertura do Programa de Poesia
14/03 – Elementos universais na poesia
21/03 – Prática, leitura & interpretação
28/03 – O ofício do poeta

ABRIL
04/04 – Figuras poéticas & significado poético
11/04 – Ritmo & movimento na poesia
18/04 – Prática, leitura & interpretação
25/04 – Poesia & encantamento

MAIO
02/05 – Integridade poética
09/05 – Elementos da descrição poética
16/05 – Imagens & impressões
23/05 – Prática, leitura & interpretação
30/05 – Efeitos descritivos complexos

JUNHO
06/06 – Poesia como visão pura
13/06 – Prática, leitura & interpretação
20/06 – Prática, leitura & interpretação
27/06 – Revisão do conteúdo

JULHO
04/07 – Práticas de composição e de declamação
11/07 – Práticas de composição e de declamação
18/07 – Prática, leitura & interpretação
25/07 – Prática, leitura & interpretação

AGOSTO
01/08 – Estrutura narrativa & estrutura dramática
08/08 – Formas narrativas tradicionais
15/08 – Poesia dramática
22/08 – Feriado: Aniversário de Araraquara
29/08 – Argumento explícito

SETEMBRO
05/09 – Prática, leitura & interpretação
12/09 – Humor & sátira
19/09 – Argumento implícito: ironia & ambiguidade
26/09 – Poesia metafísica

OUTUBRO
03/10 – Símbolo & evocação
10/10 – Prática, leitura & interpretação
17/10 – Alegoria & simbolismo
24/10 – O símbolo poético como força diretriz
31/10 – Prática, leitura & interpretação

NOVEMBRO
07/11 – Tradição & pensamento poético
14/11 – Prática, leitura & interpretação
21/11 – Poesia: a idade & o corpo do tempo
28/11 – Encerramento do Programa de Poesia

11 de mar. de 2015

Aula 02: Textos complementares

Seguem abaixo dois textos complementares à Aula 2: Procura da poesia, poema de Carlos Drummond de Andrade, e o conto Super Flumina Babylonis, escrito por Jorge de Sena.

Ambos foram extraídos da internet e os links podem ser conferidos ao final da página.

(O poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, já tinha sido publicado anteriormente neste blog: para lê-lo, clique aqui.)


Procura da poesia
Carlos Drummond de Andrade


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.







Super Flumina Babylonis
Jorge de Sena

É que os gênios não têm, não precisam de ter biografia.
Latino Coelho, Luís de Camões, Lisboa (1880)


A ascensão da estreita escada escura, e tão a pino, com os degraus muito altos e cambaios, era, sempre que voltava a casa, uma tortura. À força de equilíbrios, meio encostado à parede, cuja cal já se esvaíra havia muito e até nas suas costas, e apoiando em viés uma das muletas no extremo oposto do degrau de cima, ia subindo cuidadosamente, num resfolegar de raiva pela lentidão. Toda a unção adquirida na conversa com os frades de S. Domingos, a cujas preleções regularmente assistia, ficando depois a discretear com eles, se perdia naquele regresso a casa, ao fim da tarde, e mal se recompunha no repouso à janela, sentado no banquinho baixo, comido o caldo, e ruminando memórias e tristezas, enquanto a velha mãe prosseguia intermináveis arrumos pontuados de começos de conversa, a que respondia com sorrisos e distraídos monossílabos ou com frases secas em que ripostava mais a si próprio que a ela mesma. Às vezes, ela insistia, repetindo um comentário, por uma resposta sua. Mas mesmo essa insistência não significava comunicação efetiva: ela apenas pretendia tranquilizar a própria consciência e o seu dó do filho envelhecido e doente, que a vida destruíra, com algumas palavras que lhe dirigisse, simulando uma conversa que não o deixasse entregue, perigosamente, aos solitários pensamentos, onde é sabido que o Inimigo especialmente se insinua. E não era dos pensamentos que ele tinha medo, mas dos vazios cada vez maiores que, entre os pensamentos, se faziam. Quando ela lhe falava, e sobretudo quando ela insistia, precisava não se deixar distrair pelas palavras que ouvia: ou logo, no fio interrompido das ideias que continuamente deslizavam como um rio revolto, se abria um vácuo tenebroso, um vórtice sombrio em que flutuavam farrapos de versos e de coisas vistas, e, mais no fundo, como que uma pequenina porta iluminada, ou um vidro posto sobre estranhas águas em que nadavam esquisitos seres, e que parecia um olho fito nele, pestanejando ou palpitando, não sabia bem, talvez que, sim, nem mesmo um olho, mas uma transparência marinha como os reflexos das ondas ao luar. A pequenina porta, que lhe fazia vertigens, nem sempre se mostrava. Na maior parte das vezes não havia mais que o poço em que se debruçava, ansioso de que a portinha se abrisse e tremente até ao arrepio pela frialdade que dela vinha. Fechando os olhos, cerrando-os com bastante força, conseguia então afugentar aquelas visões» ou aquela visão, sempre a mesma, que sonhava acordado. Porque dos sonhos tinha ódio. Pensar, devanear, lembrar, imaginar, mesmo supor como tudo poderia ter sido numa vida triunfante e num outro mundo, não era sonho, mas a certeza de que existia, de que as coisas se arrumavam por sua vontade, que a ordem delas e do Mundo era um desconcerto que ele organizava mentalmente. Quando dormia, não sonhava nunca. Não eram sonhos as coisas que então via, mas a continuação do mesmo poder e da mesma certeza, ou então tentações do demônio, como diziam os padres. Mas as tentações ele conhecia bem.. Não eram tentações da sua alma que Deus não deixaria que se perdesse nunca, a não ser naquele vórtice estranho onde parecia que Ele não penetrava. Como tentações? Que tentação era ter nos braços uma mulher que lhe escapara? Que tentação era matar, dormindo, um inimigo poderoso e inacessível? Que tentação era ver-se feliz num palácio, rico, respeitado, rodeado de servos e de admiradores, com uma mesa farta de bons petiscos e de bons vinhos, e com saúde e vigor para uns jogos de armas ou para uma bela amante pescada na rua, todos os dias uma diferente? Que tentação ver-se na Corte, com bom gibão de veludo e a gola de finas rendas, ouvindo os elogios dos seus pares, e recitando ou lendo o último poema escrito? Não eram tentações estas coisas, não, mas consolações piedosas da sua alma, a satisfação do que lhe fugira, a plenitude do que não tivera, a saciedade do que não bastara, a conquista do que jamais pudera ter sido seu. Pecado é sonhar com o futuro: desejar a mulher que se viu neste instante, querer com fúria o que é dado a outros, invejar furiosamente, como coisa que nos foi roubada, a felicidade alheia que está dançando, sem vergonha e sem respeito pela nossa miséria, diante dos nossos olhos que param a vê-la. Mas imaginar-se feliz no passado, com aquilo que fugidiamente o perpassara, e não fora nunca do tamanho da sua fome, não era tentação, não era um pecado, era, sim, a sua única riqueza, a sua única razão de esperar a morte, seco de amor, exangue de entusiasmos, descrente da pátria, destituído até da alegria de fazer versos. Os seus versos, agora, haviam-no abandonado. Haviam-se desfeito, como açúcar, no rio ininterrupto do pensamento, aonde antigamente flutuavam de súbito, como pedaços de ardente gelo, que um a um se atrelavam para dar um poema. E não tinha deles saudade alguma. Não fora nunca para si próprio que os escrevera. Para os outros, sim. Para que o ouvissem, para que o admirassem, para que o entendessem, para que vissem como tudo, na vida, tinha um sentido exato que só ele era capaz de achar, uma arquitetura que não teria tido sem ele, uma beleza que não existe senão como a ideia que primeiro é pensada por quem é digno dela.

Empurrou a porta, e entrou. Contra o costume, a mãe não lhe apareceu, nem ele sentiu na casa ruído algum. Fechou a porta, foi até à mesa, e sentou-se na cadeira, encostando as muletas. Sentar-se era um alívio do cansaço, e uma nova tortura também. Mas a ausência da mãe, tão inabitual, tornou menos tortura a tortura de sentar-se ajeitando as partes inchadas e doloridas, ato que, com uma vergonha infinita, era obrigado a fazer diante dela, e que por isso não ajeitava bem, sentindo os olhos da velhinha fitos nele, horrorizados com a monstruosidade dos castigos reservados a quem se entrega aos pecados da carne, sem se manter puro como veio ao mundo. Ela, que, quando o marido voltava de uma viagem, só deixava que ele a beijasse depois de ter a certeza que não havia desembarcado em porto algum, desde muitos meses… Suspirando, sorriu para si mesmo. Na primeira viagem que fizera, ao embarcar-se para a Índia, ainda derrancado das orgias de noites consecutivas, destinadas a prevenir-se para tanto tempo de céu e mar e de conversa de homens, ele… Benzeu-se. Estas memórias eram tentações da carne. E nisso estava a diferença da poesia que escrevera na vida. Umas vezes escrevera na verdade para saber o que pensava. Mas outras vezes escrevera para possuir efetivamente, como, quando era moço, repetia de seguida o ato do amor, não porque desejasse, mas para sentir melhor que possuía, para ter a certeza de que possuía mesmo a marafona de que se esquecera durante a primeira vez. Agora, assim alquebrado e impotente, tudo o que pensava, se o escrevesse, lhe parecia que era só desta poesia que pecava contra o Santo Espírito, e que não era uma dádiva, uma oferta do seu corpo ao corpo em que entrava, mas uma rapina, uma avareza, uma maneira de devorar o próximo. E mesmo de tudo o que escrevera lhe parecia incerto que o tivesse sido abnegadamente, já que sempre ansiara pelo reconhecimento alheio, pelo triunfo, pela glória, pelos prêmios, a ponto de contentar-se com o sorriso constrangido dos ignorantes a quem lia os poemas.

Levantou o olhar para a janela. No prédio fronteiro, viu o calafate sentado à mesa, que o observava amigavelmente por cima da escudela fumegante. Acenou-lhe de cabeça, e o outro fez com a mão um gesto largo, que terminou apontando o caldo numa oferta gentil. Correspondeu com um gesto como que de adeus, e desviou a vista. À varanda vieram encostar-se as duas crianças; não precisava de fitar Para saber. Nunca gostara de crianças, nunca pensara em tomar estado para tê-las suas. Talvez por isso mesmo é que tanto ou tudo da sua poesia ficara como aqueles filhos que não quisemos ter, e que depois se despegam de nós adivinhando um desapego de que nos arrependemos, mas que não deixa de ser um desapego mesmo arrependido. O amor para ele fora carne e espírito, tão carne, que nenhum espírito podia estar presente, e tão espírito, que nem toda a carne do mundo, usada dia e noite, chegava para contentá-lo. Até o fastio, que às vezes o afastava longamente de contatos carnais, era uma ardência insatisfeita, que se continha, suspensa e ameaçadora, à espera de esquecer que a carne era sempre igual, e os gestos do amor tão poucos que os sabia já de cor. Mas depois, ao fazê-los, era sempre, como na primeira vez, uma surpresa, uma ignorância curiosa, um receio tímido, uma insegurança doce, um pasmo juvenil, uma alegria nova, um encantamento frenético; era como na primeira iniciação, mas sem a perplexidade e a decepção de o amor não ser mais do que isso, quando a virtude do amor não está em ser mais do que é, mas em ser o prazer de não ser isso mesmo.

Novamente ergueu os olhos para a varanda fronteira. As crianças não estavam lá, e o homem, curvado para a escudela, comia o seu caldo. Aquele mistério da Encarnação, o frade hoje falara muito bem, explicando com eloquência o seu sentido. Mas o sentido da Encarnação não precisava ele que lho explicassem. Quem amara com a carne e com o pensamento como ele, quem escrevera do Amor como ele escrevera, e quem não gostara nunca de crianças, como ele, tinha da Encarnação uma experiência que o frade não tinha. Precisamente porque tudo se encarnara nele sem encarnar-se, e lhe devorara a própria carne, deixando-o aquele farrapo imundo que era agora, quem melhor sabia o que era a Encarnação? Ou, pelo menos, tanto quanto um homem pode sabê-lo? Sentir-se grávido de um poema, sentir-se fecundado por um relâmpago entrevisto, e ser um homem — é o mais que pode saber-se. Não o sabe a mulher que dá à luz, porque é delas dar à luz, às vezes sem ter amado. Não o sabe o homem que quer ter filhos, porque os pode fazer sem amor. Mas o poeta que praticou o amor até à destruição da carne, e escreveu poemas até que o espírito acha pouco a poesia, esse, sim, esse sabe o que Encarnação seja. Apenas, porém, o sabe. Mas não viveu a Encarnação, foi a Encarnação quem o viveu a ele. E é este o grande mistério, não o outro. E é a grande diferença entre um deus que se encarna, e o homem em quem a Encarnação se representa. Uma diferença que é, afinal, uma comédia, ou pode ser vista como uma comédia, porque todo o homem a quem isso aconteça é Anfitrião, um marido enga¬nado pelo Júpiter que há nele.

Ficou vendo diante de si o palco iluminado, e as figuras declamando os versos. A porta rangeu, e os passinhos leves soaram atrás dele. A voz fininha e aguda começou a sua declamação desafinada.

— Esteve hoje cá o Padre Manuel à tua procura, e eu disse-lhe que hoje era dia de ires a São Domingos, e ele disse-me que não se tinha lembrado, e eu perguntei-lhe quando voltava, e ele respondeu que precisava perguntar-te do teu livro, mas não era pressa, voltava noutro dia, ou tu fosses procurá-lo amanhã ou depois. Que é que ele anda a fazer com o teu livro, sempre a perguntar-te coisas? Então um livro desses, que não é de coisas de Deus Nosso Senhor e da nossa santa religião, precisa que tu estejas sempre a explicar o que é isto e o que é aquilo, e a contar a tua vida, nem que ele fosse o teu evangelista? A Virgem Santíssima me perdoe, mas parece-me um grande pecado. E contar a vida às outras pessoas é um grande pecado da vaidade. A vida conta-se ao padre confessor, e faz-se a penitência que ele manda pelas nossas más palavras e obras, e pronto. E, à hora da morte, a gente conta o que ainda lembra ou fez entretanto, e o padre dá a absolvição, se fomos virtuosos e piedosos, e nunca faltamos aos nossos deveres para com Deus e a sua Igreja. Ah, veio também o criado do Senhor Rui Dias, do mando deste senhor, que tão teu amigo é, perguntar pela encomenda que te fez daquelas poesias del-rei David que Deus haja. E eu disse que tu ainda não acabaste e que logo acabas, e que tens trabalhado muito e até tens estudado com o Padre Manuel para que as palavras santas fiquem todas certas e nos seus lugares. E ele disse que o amo estava muito arreliado contigo, que havia mais que muitos meses que tinha feito a encomenda, e que tu não fazias nada, e que já tinha pago adiantado uma parte do trabalho. E eu disse que era verdade, que ele já tinha pago, mas que nestas coisas pagar adiantado alguma coisa é como dar o pano ao alfaiate, porque o alfaiate não pode fazer o gibão sem o pano, e tu não podias escrever sem comer. E disse-lhe que a tua tença estava atrasada e que não a pagavam, e que eu esperava muito da bondade do seu amo e do grande poder que lá tem no Paço que a tença fosse paga em dia, que bem a tinhas merecido de Sua Alteza pelos muitos serviços de teu pai que Deus tenha em descanso, e também pelos teus serviços, que se tinhas sido um rapaz sem juízo, e não tiveste sorte na vida, também eras um homem que escrevia livros, e sabias muitas coisas divinas e humanas, como o Senhor Padre Manuel me disse, e Frei Bartolomeu escreveu na licença que te deu…

— Frei Bartolomeu só disse que eu sabia muito de coisas humanas.

— Pois é. Porque saber de coisas divinas tu podias ter aprendido se tivesses estudado a valer, e tido juízo, que podias hoje até ser bispo e mais do que eles dois. Mas meteste-te com más mulheres e más companhias, e hoje é isso que se vê, e, em vez de seres tu a dar as licenças, és tu quem as vai pedir a eles. Se não fossem teus amigos e tu não lhes moesses a paciência, e não mostrasses como és um homem arrependido da má vida que teve, não ta davam, que isto de frades, Nossa Senhora me perdoe, se alguém me ouve. O teu pai é que se ria deles, e dizia que eram todos uns vadios, que só queriam comer e ter as mulheres dos outros. Abrenúncio, e por isso Deus o castigou com aquela desgraçada morte, que nem teve sepultura cristã. Mas tu podias ir procurar o Senhor Duque ou o Senhor D. Manuel, e lembrar-lhes que a tua tença está atrasada, e eles não há que não consigam, de tão grandes senhores que são, primos del-rei. Eu tive de sair para visitar a nossa comadre Joaquina que está outra vez com a sua dor e não tem ninguém que cuide dela, mas logo lhe disse que não podia demorar-me, porque hoje era dia de ires a São Domingos santificar a alma, que bem precisas, e logo voltavas com fome e querias a tua ceia, e ficavas aborrecido se eu não estivesse em casa quando chegasses, para te dar o caldo, e ela respondeu que não eras nenhuma criança que chorasse pelo peito da mãe, e eu disse-lhe que tu nunca tinhas chorado pelo peito da tua mãe, e é verdade também porque eu te dava logo de mamar mal tu abrias a boca para gritar. Mas que nunca choraste para mamar é a verdade, e só choravas depois, porque o meu leite era fraco e foi preciso trazer uma ama, e o teu pai queria que tu fosses criado com ama, porque não era da nossa condição que tu fosses criado ao peito de uma senhora como eu, esposa de um homem como ele, tudo gente de condição. Mas a condição que nós tínhamos era só o que ele ganhava, e Deus sabe como eu vivi depois que teu pai faltou e tu andavas lá por essas terras de gentios e de infiéis, por tanto tempo e eu sem saber se eras vivo ou morto, e só sabia quando chegavam as armadas e vinha alguém conhecido que me dava notícias tuas, e me dizia que tu tinhas ido para aqui e para ali, ou estavas não sei onde, que para mim todas aquelas Índias são o mesmo, e os nomes das terras são mesmo coisa do demônio, cruzes, de arrenegados para se entenderem. Muitas vezes eu pensava que me escrevias, mas tu nunca escrevias, e muitas pessoas me diziam que tu lá escrevias as cartas dos outros, que escrever bem tu sempre escreveste desde muito pequeno] mas punhas as coisas bonitas no papel para eles, e para mim nada. E eu ficava rezando a Sant’Ana e a Nossa Senhora e às vezes até mudava de santo para que nenhum se cansasse de me ouvir, sempre temendo que morresses nas guerras e nos naufrágios, ou dessas doenças que há lá, e a pensar que às vezes eu podia estar a rezar pela tua boa sorte e as rezas afinal servirem para te descontar os dias de Purgatório pelos teus pecados e leviandades, e o corpo que eu dei à luz estar comido dos peixes ou do gentio, sem sepultura cristã, como teu pobre pai que Deus haja e eu só soube tanto tempo depois. E a comadre Joaquina deu-me este pastel que aqui trago e que é de uma galinha que lhe deu a vizinha, ou uma meia galinha só, de que ela fez este pastel, e me disse que tinha outro e que te mandava este, mas queria que tu lhes escrevesses uma oração em verso a S. Crispim de que é muito devota, e eu disse que tu havias de escrever depois de comeres o pastel.

— Eu como o pastel, mas versos aos santos não faço.

— Deus meu, se alguém te ouve e pensa que tu não acreditas nos santos. A Santa Inquisição que nos livrou da maldade e da malícia dos inimigos da nossa Fé manda que se acredite nos santos, e eu bem sei que tu não acreditas, nunca te encomendas a eles, e é por pecado de orgulho, ao que me disse o Padre Manuel, quando eu lhe falei da minha aflição por tu não acreditares nos santos, e ele me respondeu que tu achas os santos pequenos de mais para ti, e não te contentas senão com Deus Nosso Senhor. Eu até fiquei arrepiada de pensar no perigo que é não ter um santo que nos proteja. Se não fossem o Senhor Duque e o Senhor D. Manuel e o Senhor Rui Dias e outros senhores assim, eu queria ver de que é que tu vivias, que el-rei nem saberia da tua existência. Deus me perdoe, mas não é que Deus não saiba de ti, porque ele sabe de todos nós e é um pai amantíssimo que não tira os olhos de nós. Mas está na sua divina majestade, ocupado em reger o Mundo, e nunca ninguém ganhou causas sem advogado. A mim a Senhora Sant’Ana nunca me desampara, eu nem sei o que seria de mim e de ti sem ela. Que este pastel é um milagre dela. Quando eu saí para visitar a comadre Joaquina, ia dizendo comigo que a Senhora Sant’Ana fizesse que eu não voltasse para casa com as mãos vazias e trouxesse algum petisco para o meu filho, e pedi mesmo um pastel de galinha, que era o mais certo, porque a comadre Joaquina sempre tem pastéis de galinha. E eu não prometi à Senhora Sant’Ana que tu farias o que a comadre pedisse, porque já te conheço, e não há contar contigo para coisa nenhuma que não seja comer o pastel. E por isso não faz mal que não faças os versos a S. Crispim, porque não foi promessa minha. A comadre é que disse que tu, se quisesses, podias fazer, que toda a gente dizia que eras muito bom dizedor, e que fazias logo os versos que te pediam. E eu respondi que isso seria dantes, porque agora tinhas uma encomenda muito boa, de grande rendimento, do Senhor Rui Dias, que nos fazia a honra de ser teu amigo, de pôr em verso os Salmos del-rei David que Deus haja, e que tu não escrevias nada, e até hoje o criado dele cá estivera a reclamar por causa do pagamento adiantado. Tu estás a dormir, tu não ouves o que eu digo? Come o teu caldo enquanto está quente e depois o pastel que é bem gostoso se for igual ao outro que a comadre tinha. Eu já ceei em casa dela, e estou sem apetite só de ver-te nesse estado, um rapaz tão forte e tão bonito como tu eras, que não havia moça que não se voltasse para te ver, nem homem que não se mordesse de inveja. E, quando o sol dava no teu cabelo, eu dizia comigo que o meu filho era como um rei com a coroa na cabeça, ou, Deus me perdoe, como um grande santo de resplendor dourado em dia de procissão. E ficava a ver-te ir pela rua abaixo, tão vaidoso que nem olhavas para trás, com a mão no punho da espada, e os passos tão firmes, Deus meu, que parecia que a terra era toda tua. Por essas e por outras é que as tuas desgraças começaram, com as arruaças e as brigas, e o mau feito, desgraça maior que todas, de acutilares o homem em Dia de Corpus Christi, aquele patife sem vergonha que te desgraçou e fez ir para a Índia e que merecia morrer em pecado, Deus me perdoe se sou eu quem peca. Está tão escuro já que vou acender a candeia. Mas o lume apagou-se e vou descer à vizinha a pedir-lhe lume. Deus Nosso Senhor tenha piedade de mim, velha e cansada, e com um filho homem, e sou eu quem tem de descer a escada para buscar o fogo que não há na minha casa. Abriu o olhar às trevas e ao silêncio. Conhecia tão bem os cantos da quadra, que era como se estivesse vendo a arca e o oratório com o raminho entalado, os quadrinhos de santos pendurados, a prateleira com os pratos em pé, a enxerga ao canto, onde ele dormia, a porta da alcova de sua mãe e a porta da cozinha. Via tudo com a mesma certeza e a mesma minúcia com que vira as naus do Gama navegando no mar, lá em baixo, vistas do Empíreo, com que vira Vénus abraçada a Júpiter e chorando, com que vira o Adamastor sair da nuvem grossa, com que vira o Veloso correndo pelo monte abaixo. Mas ele acutilara o Borges, porquê? Para que a vida lhe mudasse de rumo, para que ela tomasse um rumo de fatalidade, para que as índias lhe fossem impostas pela sua estrela, para que a sua estrela existisse. Erros meus, má fortuna, amor ardente, em minha perdição se conjuraram, os erros e a fortuna sobejaram, que para mim bastava amor somente. Perdição. Amor somente. Como a poesia é falsa e verdadeira. Como ela diz não dizendo, e é não dizendo que diz. Como da nossa alma não sabemos nada antes de escrevê-la, e como não é dela que sabemos depois de ter escrito. A perdição procura-se, como um homem se despe para banhar–se no mar, a modos que Leandro atravessando o Helesponto. E o amor somente bastaria, como o momento em que tudo se esquece, tudo desaparece, tudo se evapora, ao calor que abrasa e que só dura um instante mas um instante em que o tempo se suspende, se petrifica num espaço e numa forma, e todo o verdadeiro espaço foge velozmente, correndo pelos tempos fora até que é ele o tempo que se suspendeu. Apenas como isso, porque é uma imagem do supremo amor, aquele que existe além do tempo e do espaço, além das esferas, além daquele poço terrível. Além ou aquém? E se esse amor não fosse mais do que uma imagem, uma essência última da sua própria vida?

Estranhamente, no silêncio e no fluxo dos pensamentos, o poço abriu-se insólito e translúcido na sua profundeza negra, com as pequeninas formas flutuantes, e uma subia, subia, tomando cor e feições de uma medusa terrífica. Mas a porta rangeu, e uma vaga claridade fez emergirem os objetos, como formas planas, sem sombras na luz fraca. Os passinhos soaram leves.

— A vizinha diz que, no intervalo antes de tu chegares, quando eu já tinha saído, veio cá também aquele doutor que te pediu as poesias para aquele senhor que não tem nome cristão, o Senhor D. Leonis. Hoje veio cá todo o mundo, até parece o Dia de Juízo. E ele que vai de viagem ficou com muita pena de não te ver, e disse-lhe que te deixava muitas lembranças e que queria muito que tu melhorasses de saúde, e ela respondeu que tu estavas mesmo muito acabado, e ele disse que tu não acabavas nunca, porque tu eras um grande poeta, um dos maiores que já tinha havido no mundo, assim uma coisa como nem sei quem ele disse. E ela riu-se muito, e disse-lhe que o Senhor Padre Manuel também dizia o mesmo, e que era tudo bondade deles, porque isso de poesias nunca davam nada a ninguém. Só que a ti deram a tença, mas foi por causa do livro impresso e pelos muitos serviços a el-rei que o teu pai prestou em sua pobre vida, e tu também. E ele respondeu que era sempre assim que as coisas aconteciam, que a glória só vinha muito tarde, e que os prêmios, quando eram dados, nunca vinham pelo que a gente merecia mais. Eu acho que isto é descrer da infinita bondade de Deus Nosso Senhor, e não é muito respeitoso para com Sua Alteza que te deu a tença. O que é preciso é que tu vás ao Paço reclamar que não te pagam a tempo e horas, que estou cansada de me arrastar até lá, e sempre me perguntam porque tu não vais, e o outro dia o tesoureiro até me disse que era tudo história, que não ias porque tinhas morrido, e eu, se queria receber, tinha de pedir a el-rei a tença em meu nome. E tu não vais porque tens esse pecado de orgulho, e não queres que te vejam de muletas, a pedir que te paguem o que te devem. Eu é que estou cansada, e vou-me deitar que não posso mais comigo. Tem cuidado com a candeia, não gastes muito azeite, que está pela hora da morte, e bem sabes que tenho medo dos fogos e podes adormecer aí na mesa, não era a primeira vez, e a candeia pegar fogo à tua papelada, e à casa, Deus nos acuda e Santa Bárbara nos proteja. Se voltar cá o criado do Senhor Rui Dias, o que é que lhe digo? Nem me respondes, estás a cair de sono em cima da mesa. Tem cuidado com a candeia… Ficou olhando as chispinhas delicadas que a candeia fazia, como uma auréola à volta de um centro ardente. Se o criado de Rui Dias lhe aparecesse, ou ele mesmo, diria que, noutro tempo, era mancebo, farto e namorado, querido e estimado, e cheio de muitos favores e mercês de amigos e damas, com que o calor poético se aumentava, e que agora não tinha espírito nem contentamento para nada… Seriam 365 versos, tantos quantos os dias do ano, como uma via sacra da vida, 73 quintilhas como…

Levantou-se impelido por uma ânsia que lhe cortava a respiração, uma tontura que multiplicava a pequenina luz da candeia. Apoiado à mesa, arrastou-se até à outra ponta, e daí deixou-se cair até à enxerga. Remexendo nela, tirou de um canto umas folhas de papel, o tinteirinho, com a pena enfiada no anel, que se habituara, desde o primeiro embarque, a guardar assim. De joelhos, com as dores neles e nas partes aumentando muito agudas e em picadas de que cerrava os dentes, veio até à mesa, pousou nela o que trazia, e levantou-se. Ficou um momento, de olhos fechados, arquejando. Já as palavras tumultuavam nele, confundidas com as outras, inúteis e mortas, da tradução que tentara. Eram como uma tremura que o percorria todo de arrepios, com hesitações leves, concentrando-se em pequenas zonas da pele. Debruçando-se da mesa a que se apoiava, puxou para o seu lado a cadeira, e caiu sentado nela. Sentia um suor frio escorrer-lhe pela testa, e, ao abrir o tinteiro, viu que as costas das mãos brilhavam perladas. Uma onda de alegria o inundou, em sacões ansiosos. Os olhos ardiam-lhe e era de lágrimas. Tudo falhara, tudo, e a própria poesia o abandonara, receosa dos seus olhos de alma penetrantes que viam o fundo das coisas. O poço com as formas flutuando. Mas era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava, mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono da poesia. Tremendo todo, mas, com a mão muito firme, começou a escrever… Sobre os rios que vão de Babilônia a Sião assentado me achei… Riscou, desesperado. Recomeçou. Sobre os rios que vão por Babilônia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei…

E ficou escrevendo pela noite adiante.
Araraquara, 27 de Março de 1964.






O poema Procura da poesia foi extraído da página poesiapoemaseversos.com.br.

O conto Super Flumina Babylonis foi extraído da página Ler Jorge de Sena, que traz também uma versão em áudio lida por Nuno Meireles. Foram feitas algumas modificações ortográficas no texto.


2 de fev. de 2015

Curso de Produção Literária 2015: inscrições abertas!



Já estão abertas as inscrições para o Curso de Produção Literária, oferecido desde 2011 pelo Núcleo de Formação da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa".

O Curso é voltado para quem deseja aprender e praticar técnicas e métodos de composição de textos literários, sejam em prosa, verso ou drama.

A grande novidade este ano é que o Curso, antes ministrado apenas no período noturno, está abrindo uma turma também no período da tarde.

Os encontros serão semanais e as aulas terão duas horas de duração, sendo que as práticas de composição de texto, os comentários dos trabalhos dos alunos e as interpretações das obras da Literatura Brasileira serão todas diluídas em meio à exposição teórica - uma antiga sugestão dos próprios alunos.

As aulas terão início no mês de março e serão ministradas nos seguintes horários:
- turma da tarde: segundas-feiras, das 15:30h às 17:30h; e
- turma da noite: quartas-feiras, das 19:30h às 21:30h.

Aguarde: em breve publicaremos o Programa do Curso aqui no blog!

Como nos anos anteriores, além das aulas estão previstas visitas a eventos literários como o VIII Festival da Mantiqueira, a Flipoços 2015, a 15ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto e a 13ª Flip, entre outras atividades.

Para efetuar sua inscrição, procure a secretaria da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa" munido de documento de identidade e preencha o formulário de matrícula.

Casa da Cultura
"Luiz Antônio Martinez Corrêa"

Rua São Bento 909
Centro
Araraquara - SP
tel.: (16) 3333-1159

Mensalidade: R$ 45,00

Serão oferecidas bolsas integrais aos alunos que comprovarem dificuldades socioeconômicas (limitadas a 20% das vagas totais).

Para maiores informações, entre em contato com a Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa", deixe um comentário aqui mesmo no blog ou envie um e-mail: prodlit@hotmail.com.

Visite também e curta a nossa página do facebook!

27 de abr. de 2014

Flipoços 2014

Ferreira Gullar - patrono do Flipoços 2014
Pela segunda vez a Produção Literária visitou o Festival Literário de Poços de Caldas (MG) - Flipoços: evento considerado o maior do gênero em nosso estado vizinho. Os estandes da IX Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, que ocorre concomitantemente ao festival, instalados no Espaço Cultural da Urca, impressionaram, por um lado, pela quantidade em um espaço aparentemente pequeno para um evento de tamanho porte. Mas, por outro lado, talvez pela grande quantidade de público que o festival atraiu em sua abertura, chamou também a atenção dos membros de nossa expedição a pouca atenção dispensada pelos expositores aos visitantes. Curioso também é que não encontramos nenhum expositor que aceitasse o Vale Cultura. Ficam aí duas dicas para o ano que vem: maior atenção aos visitantes (para que eles retornem) e cadastramento no Vale Cultura - todo mundo vai sair ganhando. Pontos positivos foram também as rampas de acesso em toda a área, garantindo acessibilidade para cadeirantes, e a equipe de apoio que, ao contrário dos expositores, foi bastante atenciosa para com os visitantes. O almoço, nas próprias instalações do evento, foi muito bem servido e a equipe toda está de parabéns.


Luiz Ruffato e Antonio Geraldo Figueiredo
Após a refeição, os membros da expedição aproveitaram o início da tarde para explorar as atrações da cidade: passeios de charrete, visitas ao Grande Hotel, ao Palace Cassino, e ao Museu Histórico, uma esticada até o Mercado Municipal e à Fonte dos Amores, foram apenas algumas das atividades paralelas ao festival das quais nosso pessoal desfrutou. À tarde, integrando a Mostra de Cinema do Flipoços, assistimos ao documentário José e Pilar: retrato do escritor José Saramago e de sua esposa Pilar del Rio, focando particularmente os bastidores da composição de seu livro A viagem do elefante (2008). O documentário foi dirigido por Miguel Gonçalves Mendes, que compareceu para um bate-papo com o público logo após a exibição. Em seguida, continuando com o programa do dia, tivemos na Arena Cultural uma conversa com os escritores Luiz Ruffato e Antônio Geraldo Figueiredo, que falaram bastante sobre processo criativo. Luiz Ruffato, respondendo à plateia, disse que "para ser bom escritor, tem que ser bom leitor". Complementando também a proposta prática de José Saramago mostrada no documentário assistido, de escrever pelo menos duas páginas por dia, Antônio Geraldo Figueiredo citou Gabriel García Márquez, cuja receita para escrever era "escrever todos os dias, para não perder a mão". Paralelamente à conversa, a jornalista e escritora Eliane Brum lançava seu novo livro Meus desacontecimentos, no espaço Hora da Prosa. 


Encerrando a programação do dia, Ferreira Gullar, patrono do Flipoços, palestrou na abertura oficial do festival a respeito do cinquentenário do Golpe Militar de 1964. O poeta, que impressionou pela sua grande lucidez e consciência política a respeito de acontecimentos contemporâneos, palestrou - talvez muito mais lúcida e conscientemente que muita gente contemporânea - a respeito de seu engajamento e sua atuação no espetáculo Opinião (1964), junto a Oduvaldo Vianna Filho. Gullar ressaltou a dificuldade de se fazer Arte politizada, porque "antes de a Arte ser politizada, ela precisa ser Arte". Ferreira Gullar respondeu perguntas do público e autografou seus livros. No fim da noite, seguindo a tradição, encerramos a expedição numa bela pizzaria. "O que mais me impressionou foi o prédio do Cassino," disse nossa colega Morgana Becker, "que está muito bem cuidado - e a arquitetura impressiona!" Em relação às refeições, ela comentou que "O almoço estava muito bom e a pizza valeu muito a pena: ambas as ocasiões foram importantes para o entrosamento do grupo.". "Encontrei o livro que eu queria," disse Weckson Santana, "só que o preço dele era o mesmo fora da feira: o livro do Marcelo Yuka [e Bruno Levinson] Não se preocupe comigo. O que me surpreendeu foi a quantidade de HQ's e mangás: achei que não ia ter nenhum!" Quanto à cidade, prosseguiu Weckson: "achei ela ótima: movimentada e acolhedora."






20 de mar. de 2014

Retrospectiva

Assista ao vídeo Retrospectiva da Produção Literária, apresentado na aula inaugural de 2014 (2ª 10/03):






Obrigado a todos que fizeram parte desta história!





12 de mar. de 2014

Aula 02. Palavra-puxa-palavra

Continuando aqui a aula 02.: penetra surdamente no reino das palavras…, dizia Carlos Drummond de Andrade; …palavra puxa palavra, uma ideia traz outra…, Machado de Assis; vejamos então o que Luís Fernando Veríssimo tem para contribuir com aquela nossa discussão:


Defenestração
Luís Fernando Veríssimo 
O analista de Bagé (1981)

Novaes
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.

Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.

– Os hermeneutas estão chegando!

– lh, agora é que ninguém vai entender mais nada…

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.

– Alô…

– O que é que você quer dizer com isso?

Traquinagem devia ser uma peça mecânica.

– Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.

Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussufrar no ouvido das mulheres:

– Defenestras?

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas… Ah, algumas defenestravam. Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? “Nestes termos, pede defenestração…” Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:

– Aquele é um defenestrado.

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.

Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês defenestration. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela!

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.

– Les defenestrations. Devem ser proibidas.

– Sim; monsieur le Ministre.

– São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.

– Sim, monsieur le Ministre.

– Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.

– É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor…

– Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suite matrimonial no 17º andar.

– Querida…

– Mmmm?

– Há uma coisa que eu preciso lhe dizer…

– Fala, amor.

– Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:

– Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo! Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

– Fui defenestrado…

Alguém comenta:

– Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!


Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.









E para quem gostou do quadro da demonstração da proposta de exercício, aí vai:

Vincent van Gogh, Quarto em Arles - 3ª versão (1889)



Tanto a crônica quanto as imagens foram extraídas da internet.

2 de fev. de 2014

Produção Literária 2014: inscrições abertas!



A partir da próxima terça-feira, 04 de fevereiro de 2014, estarão abertas na secretaria da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa" as inscrições para o Curso de Produção Literária 2014, que entra em seu quarto ano de atividades.

Você que deseja escrever contos, crônicas, poemas, roteiros ou até mesmo novelas e romances; que deseja conhecer as técnicas de composição literária utilizadas pelos mais conceituados escritores da atualidade; que deseja exercitar sua criatividade, concorrer a prêmios literários e publicar seus trabalhos, não perca mais tempo: as vagas são limitadas!

Os requisitos são somente dois: ser alfabetizado em Língua Portuguesa e ter a idade mínima de 16 anos (sem limite máximo).

A Produção Literária é um Curso oferecido pelo Núcleo de Formação da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa", da Secretaria Municipal de Cultura de Araraquara (SP), voltado para quem deseja aprender as técnicas e os métodos de composição de textos literários. Pelo quarto ano consecutivo, o Curso pretende introduzir métodos de criação textual e técnicas utilizadas pelos grandes escritores da atualidade.

No primeiro ano, a Produção Literária focou especialmente a prática de composição de textos. Em 2012, atendendo a pedidos de alunos e de interessados, a parte de teoria literária foi melhor explorada. Seguindo sugestões de amigos, de estudantes e do público em geral, a Produção Literária trabalhou em 2013 também a leitura e a interpretação de textos da Literatura Brasileira. Neste ano de 2014 a novidade é que a carga horária passou de três para quatro horas semanais (duas aulas com duas horas de duração): uma antiga demanda dos alunos.

As aulas serão ministradas às segundas e quartas-feiras das 19h às 21h, tendo início logo depois do Carnaval, no dia 10 de março de 2014, com previsão de encerramento dos trabalhos ao final de novembro. Estão programadas diversas atividades para este ano, como a visita à Flipoços 2014, à 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, à 12ª FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty e à 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, entre outros. Todas as atividades serão postadas e comentadas neste blog, assim como textos produzidos pelos alunos e outras matérias de interesse.

Para mais informações, procure a secretaria da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa", deixe um comentário aqui mesmo no blog ou envie-nos um e-mail: prodlit@hotmail.com.

Não perca mais tempo: inscreva-se já!


Casa da Cultura 

"Luiz Antônio Martinez Corrêa"
Rua São Bento 909, Centro
Araraquara (SP)
(16) 3333-1159

Horário das aulas:

2ª feira, das 19:00h às 21:00h - Teoria e Interpretação
4ª feira, das 19:00h às 21:00h - Oficina Criativa (prática)

Mensalidade: R$ 70,00 (+R$ 5,00 de taxa de material)

A Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa" oferece bolsas integrais aos alunos que comprovarem dificuldades socioeconômicas (limitadas a 20% das vagas totais).


Confira também a notícia no site da Prefeitura Municipal de Araraquara e nos portais Sim!News e PasseiAki.



IMPORTANTE: ao contrário do ano passado, neste ano não serão aceitas inscrições em programas separados.