6 de set. de 2012

'O Escritor tem Poder'

Segue abaixo a transcrição da entrevista com Ignácio de Loyola Brandão, publicada na Tribuna Impressa do dia 25 de julho de 2012.

'O Escritor tem Poder'
Ignácio de Loyola Brandão aconselha novos escritores a pensarem apenas na qualidade de suas obras e não no dinheiro
por Matheus Vieira
ilustração de Lucas

Matheus Vieira - Qual o prazer que você sente, Ignácio, por trabalhar com as letras?
Ignácio de Loyola Brandão - Um prazer sensual. Além daquele prazer que todos conhecemos (coitados dos que não conhecem) existe o de soltar a fantasia, inventar mundos e pessoas, criar paixões, furacões, gente boa e ruim, megeras, santas, virgens ou não. O escritor tem poder. Poder de transitar por onde quer, dentro de sua imaginação.

Matheus Vieira - Qual é a realidade do mercado brasileiro para os escritores?
Loyola - Igual ao de 20, 30, ou mesmo 50 anos atrás. Apenas meia dúzia consegue sobreviver da venda de livros. Os outros têm um ofício paralelo que garante a "sobrevivência". Mas escrevemos pela paixão e pelo sonho, pela compulsão e necessidade. Tem quem queira escrever por delírio, mas este precisaria descobrir a fórmula do sucesso. E esta não existe. É aleatória, imponderável.

Matheus Vieira - E quais são as suas inspirações na hora de escrever, Ignácio?
Loyola - Inspirações? A realidade à minha volta. O mundo, as pessoas, a minha constante observação, o caderninho de anotações, as conversas, a intuição, o sexto sentido, o olhar agudo, penetrante, a busca incessante.

Matheus Vieira - Algum autor de Araraquara?
Loyola - Não, nenhum autor de Araraquara me inspirou.

Matheus Vieira - Que conselho você dá para aqueles aspirantes a escritores, que sonham em viver dessa arte?
Loyola - Escrever, escrever, escrever, ler, ler, ler. E em lugar de pensar em sucesso e dinheiro e fama, pensar em escrever boas histórias, bons romances. Colocar como meta ser o maior de todos e lutar para isso. Estou cansado desses jovens (e não jovens) que me procuram dizendo: quero ser escritor e ficar famoso. Digo: desista.
Outro veio e me perguntou: Como se faz uma tarde de autógrafos? Expliquei o mecanismo. Simples: livro, livraria, autor e convidados. E ele: Quantos livros preciso vender na tarde de autógrafos? Depende de quantas pessoas apareçam. Em seguida: E como faço para editar um livro? Expliquei e perguntei: Está pronto o livro? O que é? Romance, conto, crônica? E ele: Ainda não escrevi, estou me informando, por enquanto.

Matheus Vieira - Atualmente, o senhor está trabalhando em alguma obra?
Loyola - De uma conversa com Sandra Lapeiz, da Fundação Carlos Chagas, coordenadora do programa nacional Livros Para Todos, que vai este ano levar bibliotecas para mais de 50 cidades brasileiras, surgiu a ideia de fazer uma série de textos em cima das músicas que me seguiram ao longo da vida e me marcaram. O livro ficou pronto.
Imagens de Araraquara e de São Paulo, de Cuba, de Roma, contos, crônicas, memórias. Um livro indefinível. Gosto de gêneros sem definição. O livro terá imagens de Paulo Melo Jr. e um CD com todas as canções citadas, cantado por Rita Gullo. Título: "Solidão no Fundo da Agulha". O título é tirado de um poema de Viviane Mosé, poeta, educador e cronista.

20 de ago. de 2012

22ª Bienal do Livro de São Paulo

Visões da rua a partir do
Museu da Língua Portuguesa
(fotografias de Pâmela Lino)

A Produção Literária realizou mais uma de suas excursões (ou seriam incursões?): desta vez programamos um final de semana passeando na 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em que aproveitamos para também visitar alguns pontos de referência literários, gastronômicos e artísticos da cidade.

Saímos do Parque Infantil, em Araraquara, na manhã do sábado, 18 de agosto, e a van nos deixou na entrada da Estação da Luz, em São Paulo. Ali visitamos o Museu da Língua Portuguesa, cuja atração principal foi a antologia literária projetada na Praça da Língua, e depois a estação ferroviária propriamente dita. Na hora do almoço, caminhamos até o Mercado Municipal Paulistano, onde pudemos, após uma longa espera, experimentar seu lendário pão com mortadela. Para encerrar a programação de visitações, passamos o restante da tarde em visita à Pinacoteca do Estado.

Visões do Sítio do Sol
(fotografias de Pâmela Lino)

Complementando as referências literárias, gastronômicas e artísticas - e talvez reunindo-as todas num só evento especial -, tivemos também uma atração, digamos assim, ecológica: o pernoite de sábado para domingo aconteceu no Sítio do Sol, no município de Mairiporã, às margens do rio Juqueri, no meio da Serra da Cantareira. Atração "ecológica" porque "bucólica" não seria a palavra correta, uma vez que não haviam rebanhos a pastorear. No sítio pudemos conhecer a biblioteca do Sargento Adherval Costa, composta por uma coleção de obras raras de fins do séc. XIX até a primeira metade do séc. XX. Os livros, todos eles caprichosamente encadernados e classificados, versavam sobre as mais diversas frentes das ciências humanas: Literatura, Crítica Literária, História, Filosofia, Sociologia, Linguística, Antropologia, Etnografia, Folclore, Ciência Política, Artes Plásticas, Geografia, Psicologia e... Culinária, é claro. A biblioteca do Sargento Adherval Costa foi uma forte referência literária, que reuniu-se ao farto e delicioso churrasco oferecido pelos anfitriões, Senhor Osiris e Dona Rita (os pais de Pâmela Lino, diga-se de passagem; respectivamente sogro e sogra deste Assis que vos escreve), e então ao violão e às improvisações junto à fogueira, que completaram as referências gastronômicas e artísticas do encontro. Na manhã seguinte (19 de agosto), após um delicioso café da manhã, descemos pela mata ciliar até as margens do rio Juqueri, onde caminhamos e observamos a avifauna da mata nativa: aí a parte "ecológica" da viagem.


Depois de tudo isso, despedimo-nos de nossos anfitriões e partimos de volta para a cidade. Visitamos a 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo - talvez a maior feira de livros da América Latina. Vamos ver: ano que vem planejamos uma viagem à XVI Bienal do Livro do Rio [de Janeiro]...


Ofertas imperdíveis de última hora, encontros casuais com grandes figuras do meio literário brasileiro, filas intermináveis, empurra-empurra, impaciência, satisfação por encontrar aquele livro que se estava procurando, conversas imprevistas sobre assuntos dos mais diversos e o lançamento do livro "Contos Reunidos", do Grupo da Rua Três (que merece um post só pra ele): entre essas e outras, o pessoal da Produção Literária aproveitou bem o passeio.


Terminado o dia, como não podia faltar, ainda tivemos tempo para comer uma pizza antes de pegar a estrada de volta para Araraquara, cheios de planos para futuras incursões (não seriam excursões?).


17 de ago. de 2012

Tem alguém em casa?




A seguir, a apreciação de nosso colega Victor Costa sobre a peça "Tem alguém em casa?", de autoria de nossa também colega Di Souza.

No domingo 22 de julho, no Teatro Municipal de Araraquara, foi apresentada a peça Tem alguém em casa?, de autoria de Néia Souza, nossa colega da Produção Literária.

O espetáculo começa com uma tensão contínua que acompanha os personagens a todo momento. A relação entre pai e filho, já muito desgastada por alguns motivos que nos são apresentados logo no início, torna, por alguns instantes, a peça um pouco óbvia. Mas, pela maneira como as coisas se desenvolvem, pelos diálogos precisos e objetivos apresentados ao público de maneira sucinta, expõe-se tudo o que é preciso saber para tirarmos nossas próprias conclusões. O drama consegue nos fisgar definitivamente - a trama provoca então uma grande empatia no espectador. Somos surpreendidos por eventos decisivos que conduzem os personagens por caminhos inesperados. O conflito constante e as contradições enriquecem ainda mais o espetáculo, que apresenta primorosamente um drama de qualidade, onde, apesar de tudo, a esperança persiste a todo tempo. Há uma grande valorização do conteúdo: o enfrentamento direto entre pai e filho, ambos em contato com os demais personagens, caracteriza grande parte da ação na peça. A magnitude desse drama exige muita intensidade no desenrolar dos acontecimentos, que conta com uma ótima caracterização através das ações, dos diálogos entre personagens e também da atuação. Tudo isso conduz a um final em que é preciso o público estar muito atento, pois as cenas tornam-se muito rápidas e dinâmicas, respeitando, porém, o ritmo natural da história.

Esperamos que em Araraquara surjam novas peças com esse nível de qualidade, que possam permitir ao público alimentar-se da vontade de voltar novamente ao teatro, começando a frequentá-lo com maior assiduidade, sem receios e com a certeza de que vai presenciar um belo espetáculo.

Victor Costa