14 de nov de 2012

A caixa azul

Segue abaixo um conto, no gênero "thriller psicológico", característico de Wellington Augusto Marcolino.


A caixa azul

24 de setembro de 2012, 01:45 p.m.

- O almoço estava ótimo, querida.

- Obrigada. Mas aonde você vai com tanta pressa?

- Recebi uma ligação do consultório. Parece que há um paciente à minha espera. A Mariana ainda não telefonou?

- Não. Hoje ainda não; ela deve ter ficado até mais tarde na faculdade.

- Tudo bem. Assim que eu estiver mais sossegado te ligo do trabalho. Beijo. E quando a Mariana ligar diga que mandei um beijo. Não se esqueça de perguntar se ela vem passar o fim de semana conosco.

- Claro que ela vem. É seu aniversário. Não seja bobo. Beijos. Te amo.

- Também te amo!

Mariana sempre passava as datas especiais em casa. Era dedicada à família e não herdara a arrogância do pai. Dr. Paulo nunca foi muito presente. Esquecera-se do último aniversário da filha e na tentativa de reconciliação mandara para a menina um par de brincos de pérola.

*                    *                    *

No caminho para o trabalho, dr. Paulo olhou para seu braço com uma marca de mordida e sentiu repulsa. Também ia olhando de relance os anúncios e outdoors que poluíam sua visão. Queria, na verdade, avistar o seu próprio: um bem grande que trazia uma foto sua vestido com seu terno italiano com a mão nas têmporas e os cotovelos apoiados em uma grande mesa de cerejeira tomada por livros. Havia livros por todas as partes. Na sua retaguarda e até uns ao seu pé, que ele quis que o editor de imagem cortasse mas este se recusara dizendo que a imagem perderia sua forma e naturalidade. Dr. Paulo não gostava dos artistas.

Assim que passou pelo outdoor que dizia “Dr. Paulo Gusmão, cinco vezes reconhecido pela Associação Brasileira de Psiquiatria. Clínica Gusmão: há mais de uma década zelando pela saúde mental. Mente sã, corpo são”, o doutor, com seu ego inebriado, estacionou o carro na sua costumeira vaga e dirigiu-se até o elevador. Apertou o 15º andar e cruzou as mãos na altura dos testículos. Adentrou o recinto avistando a secretária, que na ante-sala o esperava com uma ficha de controle nas mãos:

- Ele está lá dentro, doutor.

Passou pela moça, pegando automaticamente a ficha de suas mãos e ignorando o fato de haver outra pessoa respirando além dele no mesmo lugar.

Abriu a porta de seu consultório e avistou Jorge deitado no divã.

Jorge estava usando uma camisa xadrez, calça marrom e um sapato preto bem surrado. Tinha um anel, que o doutor julgava ser de camelô, no indicador da mão direita, e usava o cabelo sempre virado para o lado esquerdo. Era fã dos Beatles, por isso deixava um bigodinho à lá George Harrison e costeletas no estilo Ringo Starr. A camisa enfiada por dentro da calça realçava a barriga um pouco volumosa; as duas mãos cruzadas numa posição mortuária que só era amenizada pelo fato de ele fazer um pequeno chiado ao respirar. Talvez ele tivesse asma ou coisa que o valesse. O doutor não gostava daquele chiado.

- Pois bem, Jorge, o que faz aqui? Achei que nosso próximo encontro fosse na semana que vem.

Ao levantar-se do divã, Jorge desatinou num choro suplicante:

- Me perdoe, doutor. Por favor, me perdoe.

- Está tudo bem, Jorge. Ontem você infringiu as regras. Tivemos de sedá-lo.

- Me perdoe pela mordida, doutor. Juro que estou arrependido...

- Já está tudo bem.

O consultório do dr. Paulo era frio por causa do ar condicionado. Tinha um enorme tapete que pegava quase todo o centro da sala. E, ao fundo, uma grande mesa de mármore com alguns livros e uma cadeira giratória de tamanho absurdo. Logo atrás, um quadro da família.

Este quadro fez Jorge tomar uma decisão. Queria desculpar-se com o doutor pela última consulta. Queria dar a ele uma coisa de que gostasse muito.

- Eu trouxe um presente para o sr. doutor.

Estendendo as mãos que buscaram uma caixa atrás das sombras do divã, Jorge entregou- a ao doutor.

- Espero que o senhor goste! – era uma caixa azul.

- Certo. Agora você pode ir Jorge. Nos vemos na semana que vem.

- Doutor? O Sr. sabe que eu não gosto que gritem comigo, né doutor? O Sr. sabe.

Jorge não gostava que gritassem com ele.

- Sim, eu sei. Agora, por favor, Jorge. Não me faça chamar os seguranças.

- Tudo bem, doutor. Tchau. Até semana que vem.

- Até.

A porta se fechou e o doutor respirou fundo.


24 de setembro de 2012, 05:45 p.m.

- Consultório do dr. Paulo Gusmão, boa tarde!

- Oi, Vanessa. É a Linda. O Paulo ainda está por aí?

- Olá, senhora Gusmão. Está sim. Um minutinho só, que eu já transfiro a senhora.

- Obrigada!

- Oi, Linda; aconteceu alguma coisa?

- Estou preocupada, Paulo. O celular da Mariana só cai na caixa postal. Falei com as amigas dela da república e elas disseram que a Mariana não dormiu em casa essa noite. Ela nunca fez isso.

- Fique calma, Linda. Na certa ela está com algum namorado. Vou sair do consultório em cinco minutos. Vou até a cidade universitária procurar por ela.

- Obrigada, querido. Não sei o que seria de mim se não fosse sua calma e serenidade.

- Não se preocupe. Até mais tarde.

*                    *                    *

Saindo do consultório o doutor passou pela mesa da secretária:

- Tome, Vanessa, livre-se disso para mim por favor.

- O que é isso, doutor? Que caixa mais bonita! Eu adoro esse tom de azul...

- Não faço a mínima ideia. O maluco do Jorge quem me deu. Eu não quero nem saber o que é.

- Pode deixar que eu dou jeito, doutor.

- Obrigado. Até amanhã.

- Até amanhã, doutor.

Dr. Paulo caminhou até a porta e chamou o elevador. Enquanto isso, escutou seu celular vibrar dentro de sua valise. Ele abriu a pasta calmamente e pegou o telefone, ficando aliviado ao ver o nome no visor do aparelho: Mariana.

- Olá, querida. Que saudades! Por onde foi que você andou hein?

- O senhor sabe que eu não gosto que gritem...

Neste instante um grito apavorado veio do consultório. E mais outro. E outro grito.

Paulo saiu correndo e encontrou a secretária, trêmula, com as mãos no rosto. No chão, o doutor viu a caixa azul com um rastro de sangue que levava até uma cabeça decapitada. Paulo derrubou a pasta e o celular no chão. Arregalou os olhos e com as mãos na cabeça soltou um urro desesperado.

Entre fios de cabelo ensanguentados, grudado em um pedaço de cartilagem que um dia fôra uma orelha, notava-se um delicado brinco de pérola.

Do celular caído no chão podia-se ouvir entre os gritos de Paulo e Vanessa uma voz suplicante:

- Parem, por favor, parem de gritar!

Jorge não gostava de gritos.



Leia também Mergulho noturno - apreciação "semifictícia" de Wellington Augusto Marcolino sobre a excursão à 10ª FLIP.

8 de nov de 2012

A longa espera

Segue abaixo um conto de nosso colega Elias Araújo, composto a partir do exercício sobre Decisão Crítica proposto em aula.


A longa espera
Elias Araújo

Ele toca a campainha. E espera. Sabe que os passos vêm em sua direção. E espera. A porta abre-se lentamente. Uma voz de criança escapa pelo vão e viaja no calor da noite...

O ritual dura mais de dez anos. E no tempo entre tocar a campainha e esperar a porta ser aberta, a dor de lembrar dobra a última esquina e o devolve à luz dos faróis que vieram em sua direção.

* * *

Não houve muito tempo para pensar, nem para coisa alguma que não fosse parar de cantar a música que a nora havia começado dentro do automóvel, todos felizes com a descoberta do sexo do bebê. A colisão não foi tão brutal, mas a velocidade dos automóveis que se chocaram fizeram seu carro capotar duas vezes e descansar no escuro do outro lado da pista. Em poucos segundos ele voltou a si do atordoamento e saiu do carro, cambaleando. Quando pensou que ficaria em pé, sentiu a perna dobrar-se numa crescente dor. Estava quebrada. Gemeu e caiu.

Começou a chamar pelo filho e pela nora, mas ninguém respondia: o rapaz debruçado sobre o painel do carro, a moça com a cabeça jogada de encontro ao vidro. Pareciam apenas desmaiados, mas algo estava errado. Ele percebeu. Além do acostamento havia um barranco que descia, íngreme e assassino, até o riacho.

Tentou pensar rápido, torturado pela dor da perna partida. Se salvasse a nora primeiro, com o neto que viria dali a dois meses, o carro despencaria com o filho ladeira abaixo. Se tirasse o moço, não tinha certeza de qual seria a reação do automóvel. Chorou ao se lembrar de como fora difícil resgatá-lo da adolescência desregrada, quando então o menino também se metera em buracos e barrancos, levado pela falsa impressão de felicidade que as drogas lhe davam.

Sem pensar em mais nada além de salvá-lo de mais um buraco, ele arrastou-se até o carro, entrou com dificuldade, soltou o cinto e puxou o filho para fora. Depois tentou rastejar novamente, com a perna tentando contê-lo a qualquer custo. No entanto, teve de recuar no momento mesmo em que pôs a mão na maçaneta da porta de trás: o carro moveu-se lentamente. E caiu.

Ele só gritou de desespero quando vislumbrou um clarão de fogo.

* * *

Os olhos do seu garoto brilham em direção aos seus:

— Feliz Natal, filho!

E ele espera enquanto estende os pacotes embrulhados para presente. O moço pega. E o homem sabe que em seguida a porta será fechada em seu rosto: um convite para que vá embora. Há mais de dez anos ele vem no Natal e volta para casa, cabisbaixo, mas nunca desistente. No começo havia sido apenas um presente, quando o filho saíra de casa, incapaz de suportar a dor de ter sido preferido na hora do acidente. Gritara ao pai que nunca o perdoaria.

Mas sua grande qualidade era a persistência, impulsionada pelo amor paternal. 

Com o passar do tempo, o moço refez a vida amorosa. Casou-se novamente. Teve um filho. Agora o avô traz presentes para os três.

Fica esperando-o fechar a porta sem dizer nada, como nos outros anos. Mas desta vez o brilho nos olhos é diferente. O moço não diz nada: vira-se e entra. Sem fechar a porta. Os lábios do pai sorriem levemente. Os velhos olhos cansados sentem gosto de lágrima.  A porta está aberta. Um convite para ele entrar. Uma voz de criança invade novamente o calor da noite:

— É o vovô?


Leia o poema premiado de Elias Araújo.
Leia o conto premiado de Elias Araújo.
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