28 de jul de 2013

Modernismo etc.


No segundo semestre de 2013, o Módulo III - Literatura Brasileira do Curso de Produção Literária vai trabalhar Modernismo e Literatura Contemporânea.

Já nesta próxima segunda-feira, 29 de julho, teremos Oswald de Andrade, Alcântara Machado e Manuel Bandeira inaugurando essa segunda etapa do módulo.

Mesmo não tendo frequentado o primeiro semestre, os interessados ainda podem se inscrever.

Confira abaixo o programa do final de julho até início de setembro:

29/07 - Pré-Modernismo, Modernismo & Semana de Arte Moderna de 1922
05/08 - Mário de Andrade: Macunaíma
12/08 - Poesia Modernista (Cecília Meireles, Jorge de Lima e Murilo Mendes, entre outros)
19/08 - Recesso: Semana do Aniversário de Araraquara
26/08 - Carlos Drummond de Andrade
02/09 - Pós-Modernismo (Vinicius de Moraes, Mário Quintana e João Cabral de Melo Neto, entre outros)

As aulas do Módulo III - Literatura Brasileira são ministradas às segundas-feiras, das 18:00h às 19:30h, na sala P2 da Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa".

Inscreva-se já!


Casa da Cultura "Luiz Antônio Martinez Corrêa"
Rua São Bento 909, Centro
Araraquara - SP
(16) 3333-1159

23 de jul de 2013

Negrinha, de Monteiro Lobato


Negrinha
Monteiro Lobato

     Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
     Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
     Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
     Ótima, a dona Inácia.
     Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
     — Quem é a peste que está chorando aí?
     Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
     — Cale a boca, diabo!
     No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
     Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
     — Sentadinha aí, e bico, hein?
     Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
     — Braços cruzados, já, diabo!
     Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria.  E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
     Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.
     Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...
     O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...
     A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...
     O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana.  Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:
     — Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...
     Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!
     Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.
     Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.
     — “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.
     Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.
     — Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.
     — Traga um ovo.
     Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
     — Venha cá!
     Negrinha aproximou-se.
     — Abra a boca!
     Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:
     — Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
     E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
     — Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!
     — A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.
     — Sim, mas cansa...
     — Quem dá aos pobres empresta a Deus.
     A boa senhora suspirou resignadamente.
     — Inda é o que vale...
     Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.
     Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.
     Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.
     Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?
     Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
     — Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.
     — Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.
     — Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.
     Chegaram as malas e logo:
     — Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.
     Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
     Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...
     Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
     — É feita?... — perguntou, extasiada.
     E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
     As meninas admiraram-se daquilo.
     — Nunca viu boneca?
     — Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
     Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
     — Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
     — Negrinha.
     As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
     — Pegue!
     Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
     Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
     Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
     Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
     — Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
     Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
     Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...
     Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
     Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
     Assim foi — e essa consciência a matou.
     Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
     Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
     Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
     Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
     Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
     Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.
     Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
     Mas, imóvel, sem rufar as asas.
     Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...
     E tudo se esvaiu em trevas.
     Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...
     E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
     — “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
     Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
     — “Como era boa para um cocre!...”


16 de jul de 2013

Liquidificador, de Victor Costa


A Flip estava diferente. Na última edição, por exemplo, era Drummond pra todos os lados: estátua, fotos, trechos de poemas. Já este ano, Graciliano Ramos, o escritor homenageado, ficou de lado. Houve eventos interessantes nas duas casas Folha, no Instituto Moreira Salles, na Casa da Cultura, na Casa do Autor Roteirista, com uma programação paralela muito mais diversificada que em outras edições.


No sábado pela manhã, a Casa Folha 2 ficou entupida de gente. Alguns dos que estavam do lado de fora nem sabiam o que acontecia e mesmo assim se acumulavam na Rua do Comércio. Do lado de dentro, Zeca Camargo falava do livro “Nu”, uma autobiografia.

À tarde, o que mais me chamou a atenção na programação foi um bate-papo na Casa do Autor Roteirista, com o diretor de cinema e televisão Luiz Fernando Carvalho. Entre outras coisas, ele falou da sua experiência na elaboração do roteiro de seus filmes, na direção de algumas novelas como Helena e Esperança; ainda comentou sua minissérie Subúrbia, que foi ao ar no ano passado, na Rede Globo. O local ficou lotado, obviamente. Vários globais apareceram no evento. Quando terminou, fui até a Mariana Ximenes e pedi pra mãe dela tirar uma foto nossa, depois tirei uma com José de Abreu e, por fim, com Thelma Guedes, autora de telenovelas como O profeta, Cama de gato e Cordel Encantado. Eu disse que adoro o trabalho dela e blá blá blá.

E à noite, como de costume, tudo terminou em pizza.

No domingo depois do almoço fomos a caminho da Estrada Real, mas acabamos dentro da mata, nas pedras duma cachoeira. Entre fotos e escorregões salvaram-se todos. E nós nem sabíamos que a maior aventura seria na volta, a caminho de Araraquara.

Graças ao  motorista? – malabarista que acelerava ao subir a serra, entre abismos; eu cravava as unhas no banco da van, mais tenso a cada curva. Me senti dentro dum liquidificador. Eu devia ter aproveitado a oportunidade e feito um milk shake.


Victor Costa


9 de jul de 2013

11ª FLIP


Nossa expedição à Festa Literária Internacional de Paraty melhora a cada ano que passa. Apesar dos muitos problemas que surgiram para assombrar a organização deste ano ― como pousadas que não respondiam, prazos de reservas que se estouravam e números de integrantes que variavam ―, a Produção Literária conseguiu, pela terceira vez, realizar sua excursão anual à FLIP e retornar sã e salva para contar a história. Em sua 11ª edição, o evento ofereceu mais atividades "paralelas" que nos anos anteriores: aliás, atividades estas, que sinceramente despertaram muito mais interesse em nós do que as atividades principais. O escritor, político e jornalista alagoano Graciliano Ramos, o homenageado da vez, apareceu pouco, e talvez tenha surgido daí a sensação de que as atrações dos espaços secundários estavam mais atraentes. Mas há de se destacar o ponto sempre positivo, que é a oportunidade que os membros da expedição têm de conhecer pessoalmente os escritores, artistas e formadores de opiniões, além, é claro, de viver toda essa experiência que é o passeio propriamente dito, como participar do lançamento de um livro, assistir a um bate-papo e até mesmo cruzar com um autor no meio da rua, visitar uma exposição de arte e sentar-se à beira da praia do Pontal só para ver o mar.


Saímos de Araraquara no horário usual, alcançando Paraty na madrugada do sábado. A expedição instalou-se próximo ao Campo de Aviação, na casa de uma família paratiense, que nos recebeu com um belo café da manhã. Caminhamos então até o Centro Histórico, seguindo indicações dos locais e conhecendo o "outro lado" da cidade ― a Paraty de verdade ―, parando um pouco na Praça do Chafariz: limiar entre o universo urbano contemporâneo e o centro propriamente histórico. Na Casa Folha I, assistimos ao lançamento do livro Heidegger urgente - introdução a um novo pensar (Ed. Três Estrelas, 2013), de Oswaldo Giacoia Jr, professor de filosofia da Unicamp. Na ocasião, encontramos também o Luiz Felipe Pondé, com seu cachimbo, cuja palestra a respeito de suas pesquisas sobre Nelson Rodrigues assistimos em Poços de Caldas.

Talvez mais pelo excesso de atrações "paralelas" que pelo de gente nas filas, desta vez não recolhemos tantos autógrafos dos autores. Mal terminava a primeira parte do lançamento do professor Oswaldo Giacoia, outra explanação tinha início na Casa Folha II: o apresentador Zeca Camargo estava divulgando sua autobiografia, intitulada (provisoriamente?) Nu, a ser lançada em meio digital ainda este ano. Não sei se no caso de livros digitais poderíamos dizer que a obra está "no prelo" ― mais correto seria sugerir que ela está "no ciberespaço"? Para Nicole, filha da nossa colega Magna Nagasawa, essa foi uma experiência muito legal. "Ele fala bastante; não parou de falar! Ele tem pavor de médico!" disse ela. O mediador, por sua vez "não fez muitas perguntas", como afirmou Magna, porque "o livro dele é só sobre isso". Não que pertença ao gênero autoajuda ― "muito pelo contrário" ―, mas o que ele mais queria falar era sobre "como ele engordou e como ele tem pavor de médico". "Também tem muitos detalhes sentimentais", completou Nicole. Não foi possível conseguir autógrafos de Zeca Camargo: nem tanto porque ele deixou depressa a sua palestra, mas mais porque não tinha livros para serem autografados.

Visitamos a exposição da artista plástica Daniela Seixas na Casa Sesc e a exposição sobre Graciliano Ramos na Casa da Cultura; encontramos atores famosos na palestra do diretor Luiz Fernando Carvalho na Casa do Autor Roteirista e escutamos indignações a respeito da "outra" Paraty ― aquela que não sai nas fotografias de divulgação da FLIP, aquela que é feita substancialmente de não-ficção, aquela que fica para lá do Campo de Aviação ― sugeridas pelo escritor e colunista cearense Xico Sá outra vez na Casa Folha II. Da programação principal, assistimos parte da Mesa 13, do lado de fora da Tenda do Telão, em que Aleksandar Hemon, escritor norteamericano de origem bósnia, e Laurent Binet, escritor francês, falavam sobre como a Literatura passa a ser um reflexo dos acontecimentos históricos.


No meio da tarde, manifestações populares surpreenderam a festa literária: uma grossa coluna ― posteriormente reduzida na mídia a algumas dezenas de pessoas ― marchou levando cartazes em protesto, carregando bonecões (que por sua vez também portavam dizeres), entoando frases indignadas e sendo seguidas por uma pequena patrulha da Polícia Militar. O movimento Acorda Paraty atravessou a ponte ― fato este posteriormente traduzido na mídia como um bloqueio estrategicamente deliberado para atrapalhar a 11ª FLIP ― e seguiu marchando até a Prefeitura da cidade. Saúde, educação, dignidade, fim da corrupção e fim da impunidade eram algumas das reivindicações brasileiras que ecoavam também em Paraty este ano. Dentre elas, uma bastante interessante: a quem serve a FLIP, se nos 361 demais dias do ano o município alheia-se de educadores ou mesmo de investimentos em infraestrutura?

À noite, nossa pizza tradicional. No dia seguinte, mais uma volta no Centro Histórico pela manhã, mais um passeio pelas tendas da festa literária e o farto almoço na Cantina do André. À tarde procuramos o Caminho do Ouro: não estando a estrada trafegável para a nossa van, paramos à beira de um riacho e desfrutamos de uma horinha junto à natureza. Confesso que também escorreguei numa pedra e caí dentro do córrego. Mas ninguém fotografou meu acidente. Por fim visitamos o Alambique Paratiana.

Para Alessandra Zanasi, "Paraty tem o clima ideal para esse tipo de evento. Uma cidade encantadora. Na FLIP mesmo, quase não entrei: fiquei mais nos espaços agregados. A Casa Folha trouxe gente de peso, mas num lugar muito pequeno. Ver Xico Sá foi terapêutico! Ver o [Luiz Felipe] Pondé, uma emoção muito grande! É uma emoção muito grande você ver quem você lê! Ainda mais eu, que sou folhista pra caramba!" Para ela, apesar do espaço pequeno ― tão pequeno, que as pessoas estavam até mesmo sendo barradas ― "o pessoal estava circulando bem, não me senti sufocada, nem nada! Apesar de todo o peso da FLIP, essa foi uma experiência pra se repetir novamente. Vale a pena investir: valeu muito a pena!"

Fábio Baldo participou pela terceira vez da excursão da Produção Literária à FLIP: "Gostei do passeio, foi bem interessante. Gosto muito de viajar com esse grupo, o pessoal é muito legal. Não teve problemas entre os participantes. Fizemos novas amizades e mantivemos as velhas amizades."

"Como não compramos convites para as mesas, o interessante foi a oportunidade de explorar as atividades alternativas da FLIP." afirma Sônia Cassoli. "No meu caso, presenciei palestras na Casa Folha, onde pude observar a organização, o perfil dos palestrantes e os temas escolhidos. Senti apenas que a figura e a obra de Graciliano Ramos foram pouco exploradas nessa FLIP. Tendo mais tempo, visitei o Centro Histórico e conheci o artesanato e as artes plásticas locais."


Assim como a nossa época, o evento foi marcado por comentários sobre reivindicações justas. Não visitamos o Forte Defensor Perpétuo desta vez, mas fica para o ano que vem.




Leia também as matérias publicadas no site da Prefeitura Municipal de Araraquara, no portal Sua Cidade e no jornal O Imparcial (nr. 211.430, ano 83, 12/07/2013 p. 14).
Leia as impressões particulares de Victor Costa sobre a expedição deste ano.
Relembre a nossa visita à 10ª FLIP clicando aqui; releia também as crônicas de Murilo Reis, de Wellington Marcolino e de Victor Costa sobre aquela ocasião.