16 de jul de 2012

As pedras de Paraty

Foi-me solicitada uma crônica sobre a viagem que me impediu de postar, seguindo minha regularidade dominical, no último final de semana. O frio, o vento, os livros, as pedras, a poesia, a literatura, o Drummond. Tais elementos foram os temas propostos. Acho que não conseguiria escolher um em específico. Todos contribuíram para que fosse uma viagem interessante e agradavelmente literária. Explico: refiro-me à cidade de Paraty, que abrigou a décima edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty).

Como é peculiar a essa época do ano, o frio esteve presente em boa parte do tempo. Então, para aqueles que buscavam o desfrute de um mergulho no mar gelado e um tanto quanto revolto, ir para essa histórica cidade do estado do Rio de Janeiro não era um bom programa. O clima de inverno trazido pelo vento constante permitiu que um certo charme envolto em cachecol fosse dado ao ambiente literário ali instalado. A FLIP, sem frio, seria um erro.

Pendurados nas árvores, nas janelas das casas, nas prateleiras, nas mesas dos cafés e restaurantes, na mão dos mediadores e escritores. Os livros estavam em toda a parte. Alguns eram divulgados por seus próprios escritores, que faziam sua propaganda pessoalmente pelas ruas, já que não possuíam todo o glamour e apelo comercial dado pelas grandes editoras. Foram autografados, lidos, comentados. Os autores que tentaram se colocar à frente de sua obra de arte, não foram felizes em suas apresentações.

O contato dos leitores com seus referenciados escritores é, também, o tempero essencial do festival. Encontrar por acaso (ou mesmo nas mesas de autógrafos que se sucediam aos debates) aqueles que nos fazem sonhar e vibrar por meio de seus escritos é algo fascinante. Como blogueiro e cronista amador, ansiava pela palestra (com ares de stand up comedy) da jornalista velha de guerra, na Casa Folha, Barbara Garcia. E como leitor fanático de romances urbanos e sertanejos, muito esperava pelo encontro com Rubens Figueiredo e Francisco Dantas (esse último, conheci ali mesmo, por meio de um sensacional carisma sergipano, que me levou a adquirir Os Desvalidos, talvez o seu mais aclamado livro). Todas as expectativas foram positivamente correspondidas. Foi muito bom ouvir da própria boca (suja?) de Barbara os conflitos que enfrentou nos bastidores da imprensa, e saber que Rubens Figueiredo considera sua função de professor do ensino médio mais realizadora do que a de escritor.

O homenageado deste ano foi ninguém mais, ninguém menos, mas alguém que dispensa apresentações: o eterno e imortal poeta Carlos Drummond de Andrade. Assim como no poema No meio do caminho, havia não apenas uma, mas várias pedras no trajeto de quem vagava em busca das homenagens e exposições sobre o poeta pelas históricas e patrimoniais ruas de Paraty. Mas tal esforço era demasiadamente compensado. Cada intervenção sonora, visual ou escrita provava que não é necessário se utilizar de palavras rebuscadas e rimas complexas para se fazer poesia. A poesia de Drummond, aliás, está muito além do "gostar ou não de poesia". Ela é extremamente profunda em sua simplicidade. Resvala na prosa, na crônica, no conto. É universal. Ninguém passa imune por ela.

Assim como na agenda cultural nacional, a FLIP também já entrou para a de todos os amantes de literatura que vivem ou não no Brasil. Ano que vem, espero encarar, mais um vez, as pedras de Paraty.

Murilo Reis
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