7 de set de 2012

Dois momentos


Segue abaixo o conto de nosso colega Elias Araújo, premiado no XX Concurso de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista. Nossos parabéns por mais essa conquista!

Dois momentos
Elias Araújo

Primeiro
A primeira vez que Virgínia Lênis viu seu noivo foi no dia do casamento. Ela tinha 13 anos e a alegria de uma borboleta recém-saída do casulo. Corria pelo sítio alimentando o vento da primavera com seu vestido de chita barata e com seus cabelos longos de menina livre. Brincava de pega-pega com os primos menores, sorridente como o sol da manhã, ao ouvir o tropel dos cavalos passando pela porteira. Os primos e primas saíram correndo para encontrar os pais gritando euforicamente.
Ela pensou em se esconder entre as plantas do sítio, mas a mãe pareceu adivinhar suas intenções que desonrariam o pai naquele fim de mundo.
— Virgínia. — gritou a mãe. — Vem cá, teu pai tá chegando com teu noivo.
— Mas eu não quero casar agora, mãe. — disse ela, agarrando-se à cintura da mulher. — Eu só quero brincar mais um pouco.
A mãe fez um muxoxo, o mesmo que o destino a obrigava a fazer de vez em quando ao vencer a batalha. E levou-a para dentro, enquanto suas irmãs, cunhadas e tias preparavam a casa e a festa para os homens.
Virgínia deixou-se ser lavada, vestida, penteada. E levada para a tarde florida e ensolarada do seu casamento. Quando olhou para os homens na sala, todos vestidos com roupas de missa, não viu a menor diferença de idade entre eles, a não ser o Zé Joaquim, um primo que mal chegava aos 17 anos e que a olhava como uma criança olha um doce na vitrine da confeitaria e não pode ter. Trocaram olhares de imploração e inércia de um e de outro. E de tristeza em comum.
No fundo da sala o padre a esperava atrás de um altar com tudo improvisado: uma toalha de renda, algumas flores, um livro e um noivo vestido de marrom e enfeitado com um bigode espesso. Ele não tinha boca, como ela percebeu, apenas o bigode. Então talvez nem precisasse beijá-lo.
Duas semanas antes de viajar, o pai dissera:
— Virgínia, venha cá, moleca do cão! Lembra do sinhô Pedroso, que nóis conheceu na quermesse ano passado? Então, fia, ele enviuvou mês passado e se alembrou d’ocê. Tá querendo ocê pra casar e como ocê tá mocinha já, e aqui no sítio tem seus primo que pode lhe fazer mar, dei permissão pra ele casar c’ocê quando nóis vortar de viagem.
Não, ela não tinha conhecido o homem, porque na quermesse ficara muito doente, ardendo em febre e só lembrava-se de ter ficado em uma casa de uma tal de sinhá Amália Pedroso, que cuidou dela muito bem. E mais nada.
Então aquele homem sem boca era o viúvo dela?
— Senhor Otávio Pedroso, aceita Virgínia Lênis como sua legítima esposa?
— Claro, foi pra isso que eu vim, uai!
— Virgínia Lênis, você aceita Otávio Pedroso como seu legítimo esposo?
Ela ficou muda. Olhou para a mãe e sentiu vontade de ser carregada no colo.
— Não... — sussurrou como passarinho com espinho na garganta.
— Deixa de ser besta, menina! — gritou o pai. — Claro que aceita, padre, aceita!
O padre insistiu na pergunta, esperou, esperou.
— Sim...

*                                              *                                             *

Segundo
A segunda vez que Virgínia Lênis viu seu noivo foi no dia do velório do marido. Sinhô Pedroso — como ela o chamara durante toda a vida conjugal — tinha morrido de madrugada. E ela dividira os ouvidos entre o vento desesperado por entrar na janela e os gemidos do velho.
Ela nunca soube como ele conseguia falar, gritar, comer ou gemer ou até mesmo resfolegar nas noites em que a cobria com sua manta de ossos. Porque nunca conseguira ver a boca dele atrás daquele imenso bigode, o que lhe dava uma aparência rude, talvez mesmo violenta. Entretanto, a violência nunca brotara daquele homem magro. Ao contrário, Virgínia nunca teve do que reclamar, era bem tratada, bem cuidada. Vigiada também, já que uma esposa menina bonita 40 anos mais jovem era motivo de preocupação para um pequeno fazendeiro que viajava muito a negócios.
Dos pequenos pecados que cometera até aquele momento, Virgínia só confessava ao padre a dor de nunca ter amado o marido. Talvez ele até merecesse, mas nunca conseguiu enxergá-lo de uma forma diversa daquele homem que fora buscá-la ainda descalça no sítio da família. Tudo o que fez foi lhe dar três filhos e esperar que morresse de velhice.
Infelizmente a velhice chegou, mas a morte não. Otávio Pedroso custou muito a morrer. Relutava. Insistia tanto que ela achou que a Morte tinha desistido de tentar levá-lo. Mas Ela não era entidade de desistir tão fácil dos seus pertences, Virgínia bem o sabia e resolveu ter mais paciência do que vinha tendo. Até que na última madrugada abriu o sorriso para a Morte entrar como velha amiga.
Sinhô Pedroso ainda lutou bravamente durante a madrugada. Agarrou a mão de Virgínia, gorgolejou, sacudiu-se inteiro na cama, tentou levantar. Agarrou o pescoço da mulher, como a querer levá-la junto. E realmente queria. O sussurro gutural transmitiu a Virgínia mais pavor do que nos longos anos de casamento.
— Virgíniaaa! Me ajuda, minha menina. Eu não querooooo... não quero... morrer.
— Já passou da hora, Sinhô Pedroso. — disse ela com tanta naturalidade que o marido sorriu, enquanto segurava fortemente sua mão. — Vá com Deus, Sinhô.
Ele teve um último espasmo, como alguém que morre afogado e tenta emergir antes do mergulho fatal. Depois se aquietou e morreu com olhos abertos em direção à chama da velha lamparina. Virgínia soltou sua mão delicadamente e juntou as deles sobre o peito magro. Depois calmamente fechou-lhe os olhos. Ficou um tempo assim, olhando para o rosto dele, até que a tomou uma curiosidade mórbida.
Cuidadosamente, para não machucá-lo, ela ergueu-lhe o farto bigode. E sorriu. Pela primeira vez depois de 40 anos Virgínia viu os lábios finos e inexpressivos do marido. Então, ela virou para o lado, cobriu-se e dormiu até o amanhecer.
— Que Deus me perdoe, mas tá muito cedo pra levantar.
Mais tarde, quando todos chegaram para o velório, ela já estava sentada ao lado do caixão posto no centro da grande sala de visitas da casa grande. As mulheres abraçaram-na e beijaram-na. Os homens apertaram-lhe a mão respeitosamente. Os irmãos ofereceram-lhe ajuda para cuidar da fazenda. Os filhos vieram da cidade, mas avisaram que não podiam ficar muito tempo e se a mãe quisesse vender tudo e ir morar com um deles...
— Não. Vou arrumar alguém pra cuidar da fazenda.
Disseram depois as más línguas que ele já vinha visitando a fazenda na ausência de Sinhô Pedroso, porque ela o reconheceu assim que entrou no velório. Zé Joaquim caminhou lentamente até ela, pegou-lhe a mão e ajudou-a a levantar. Abraçou-a respeitosamente sob o olhar espantado de todos os homens da sala, porque nenhum deles tinha ousado tanto.
Trocaram olhares de surpresa e alegria em comum. E tiveram pensamentos iguais, como se dissessem ao mesmo tempo como estavam ainda bonitos mesmo depois dos 50 anos.
Ela resolveu que alguns meses de luto eram suficientes para amenizar a dor de ter ficado viúva e sozinha. E como o primo Zé Joaquim também estava viúvo e sozinho, com todos os filhos casados, ambos se resolveram. Para deleite das más línguas.
A pequena igreja da cidade não comportou a família que havia crescido muito nos últimos anos em que ela ficara confinada ao casamento.
— José Joaquim de Lênis, você aceita Virgínia Lênis como sua legítima esposa?
— Sim, claro.
— Virgínia Lênis, você aceita José Joaquim de Lênis como seu legítimo esposo?
— Agora que eu não posso brincar mais um pouco, sim, aceito, sim. 

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