22 de mar de 2013

Milton Hatoum no SESC Araraquara


A Produção Literária esteve, na última 5ª (21/03), no primeiro Encontro com o escritor promovido pelo SESC/Araraquara neste ano; evento em que o convidado foi o escritor amazonense Milton Hatoum.

Constrangido pela teoria, o autor de romances premiados como Dois irmãos e Cinzas do Norte, ambos publicados pela editora Companhia das Letras, já de início afirmou à plateia atenta que para escrever seria melhor não frequentar o curso de Letras, pois "a teoria nos constrange". Para escrever é preciso ler, ele disse; aprender a escrever é a própria prática da escrita. Tal prática, entretanto, supõe uma leitura atenta. A verdadeira Literatura, esta exige de seu adepto (usando aqui a denominação praticada por Menalton Braff) uma dedicação, uma entrega e um compromisso afetivo que, assim somente, condicionalmente, ela se manifestará em sua obra. E tamanho empenho pessoal pode tomar bastante tempo, seja de pesquisa, seja de rascunhamentos. Milton admitiu: passou ao menos cinco anos escrevendo seu primeiro romance, que ficou ainda mais dois anos encorpando, qual vinho em tonel de carvalho, na gaveta, antes de chegar à editora, à livraria, ao leitor. Sua "exigência neurótica ─ obsessão neurótica  de ler antes de escrever" seria o traço mais marcante de seu processo criativo. "A paciência é uma arte," ele disse; "e quem for apressado no romance está perdido."

Milton abjurou a poesia: "é muito difícil ser poeta". No início, "como todos escritores jovens", começou imitando. O livro renegado de poemas que lançou em Brasília, afirmou, "deve ser esquecido": tentava imitar a João Cabral de Melo Neto, então, antes de tornar-se o autor com a autoridade de que desfruta hoje. Mas desdenha: "os prêmios que recebi não valem cinco bons leitores", ele disse. Não entendemos, nessa parte, se o autor desprezava ali a dúzia de prêmios que colecionou ou as dezenas de leitores que foram ao SESC vê-lo. "Mas um autor com autoridade, também não desfruta de uma boa visibilidade?" indagou, num surto de genialidade, a mediadora. "Visibilidade não paga condomínio", respondeu Milton Hatoum. Quem desdenha, quer comprar.

"Sou um caboclo de Manaus: porque um tcheco vai ler meu livro?" perguntou-se o autor, referindo-se ao romance Dois irmãos. Arriscamos uma resposta curta e grossa: desde Caim e de Abel (que já foram matéria de primeira semana da Produção Literária ano passado, só pra puxar a sardinha um pouquinho pro nosso lado também), o conflito entre irmãos ─ não necessariamente dois ─ corresponde a um Evento recorrente na Literatura. Porque? Ora, quem nunca brigou com alguém, ainda mais com o próprio irmão? Esaú e Jacó, bíblicos ou machadianos, ei-los lá em seus lugares. Na selva amazônica ou na floresta boêmia.

Outra questão interessante que surgiu na noite: como lutar contra a abominável "cultura de massa, cada vez mais baixa, neste país de Fabianos"? (Aqui Milton Hatoum referia-se ao protagonista do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos.) Ela tem um poder altíssimo de convencimento porque não faz a pessoa pensar, disse o autor. Arriscou-se também a dar resposta curta e grossa: a arma ideal contra o inimigo invencível seria a educação. Mas de repente o assunto foi interrompido e o foco voltou-se para o "narrador", como se este elemento da composição de histórias fosse tão importante que merecesse todo o resto da noite. Os teóricos gostam de discutir o narrador das histórias que eles leem. Resignados em constrangimento, deixemo-los a discutir alegremente.

Tornando ao assunto leitores, o autor mencionou algo que percebe-se bem ao longo dos últimos tempos, além da marcha abominável da cultura de massa: houve um crescimento de leitores no país, quantitativo e ─ "até mesmo", enfatizou Milton ─ qualitativo. Como isto é bom para escritores, ter mais do que cinco bons leitores, condomínio pago e prêmios, muitos prêmios! "Sinto raiva dele, porque ele é muito lido…" disse o autor de Dois irmãos sobre a obra. "Joguei tudo neste romance porque fui me abandonando na vida." Brincadeirinhas à parte, eis aí o tesouro de Milton Hatoum para os jovens  "e não tão jovens"  escritores (que talvez pensem até mesmo em imitá-lo): dedicação, entrega e compromisso. Não adianta ter uma ideia: é preciso transformá-la em palavra, ele disse. E essas palavras podem ser amealhadas em bilhetinhos, para não serem esquecidas. "A memória quando trai é mais verdadeira".



Encerrando esta crônica, palavras mais encorajadoras: "quando leio um romance e vejo que há uma verdade, [quando vejo] que o autor foi a fundo, sem nenhuma auto-indulgência, aí reconheço a Literatura grandiosa". Que Literatura é essa? Aquela filtrada pelo tempo, aquela que resistirá à prova dos dias, dos anos, dos séculos. Obrigado, Milton Hatoum, por ser verdadeiro assim.




Conheça um pouco mais sobre o romance Dois Irmãos no blog Donnerwetter!




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