1 de out de 2013

A fuga, de Sônia Cassoli

A fuga
Sônia Cassoli

Juliana estava deitada na cama brincando com seu cachorrinho de pelúcia branco com laço azul no pescoço. Ela o amava tanto! A mãe surgiu e parou na porta. Viu os brinquedos coloridos no chão. Não acreditava no que via e não adiantava falar à Juliana para arrumar a bagunça. Ela não queria: chorava e fazia birra.

A última moda de Juliana era pedir aos pais para que a matriculassem na escola. Ela já se achava crescida, queria conhecer outras crianças. A mãe não queria, achava que a menina ainda era muito pequena. Ela então pedia ao pai que, por sua vez, temia que algo pudesse acontecer à sua princesinha. Mas Juliana era incansável. Pediu, pediu e pediu. E, lógico, como era filha única: conseguiu.


A mãe, muito prendada, bordou o uniforme, a toalhinha e um lencinho para a filha levar à escola. O pai tinha uma oficina mecânica no fundo do quintal da casa e se dispôs a levar e buscar a filha todos os dias. Ele tinha um antigo monza preto muito bem conservado. Juliana estava feliz e orgulhosa por contar com o apoio dos pais.


No primeiro dia conheceu a professora: a tia Maria. Ela recebeu um bonito crachá amarelo, escrito com letras de forma, onde podia-se ler: Juliana Pontieri. A sala de aula era bonita. Havia desenhos de bichinhos pintados na parede e um varalzinho com prendedores coloridos onde eram expostas as atividades dos alunos. As outras crianças eram todas mais ou menos de seu tamanho e muito amistosas. Nesse dia, Juliana pintou um desenho lindo: o pai, a mãe e ela de mãos dadas, tendo ao fundo um arco-íris. Tomou lanche no pátio e brincou no balanço.


No fim do dia Juliana foi pra fila junto às outras crianças. Ao longe avistou o carro do pai. Despediu-se da professora com um beijo e correu em direção a ele, que a acolheu de braços abertos.Ela não cabia em si de tanta felicidade. Contou ao pai todas as suas aventuras. Em casa, narrou novamente tudo o que havia acontecido naquele dia. Exausta, dormiu como um anjinho.


No dia seguinte Juliana acordou agitada. Vestiu-se e colocou seu crachá. Não via a hora de chegar à escola para descobrir quais atividades faria. De dentro do carro, Juliana observava as ruas, as casas, as árvores e as pessoas. A escola não ficava tão longe de sua casa. O percurso era de apenas cinco minutos de carro. Ao sair Juliana abraçou o pai e correu para a fila.


Tia Maria havia programado uma atividade com massa de modelar. Juliana fez cobrinhas, cestinhos e ovinhos. A garota ao seu lado era simpática e sabia fazer um ursinho de massinha. Após a merenda, todos foram brincar nos tanques de areia. Havia baldinhos e pazinhas à disposição. Juliana pegou um balde vermelho e uma pá rosa. Gostou da combinação. Eram cores de meninas. Ela entrou no tanque de areia contente e satisfeita com a aquisição.


Juliana colocou os pezinhos na areia, sentou-se e começou a cavar com a pazinha. Não demorou muito e sentiu que alguém havia jogado areia em seus olhos e na boca. Ficou assustada e incomodada com os grãos. Começou a chorar. Tentava tirar a sujeira dos olhos e cuspia o que podia. De repente, ela ouviu uma risada e identificou o autor da peça. Era um garoto ruivo, de cabelo encaracolado, sardento e gordinho. Ela nunca havia visto a figura na frente. O garoto saiu correndo, satisfeito com seu ato de maldade.


Juliana procurou pela professora aos prantos. Estava atordoada e suja. Tia Maria viu tudo e mandou que Juliana lavasse as mãos. Depois disse que isso não era nada e recomendou-lhe a entrar na fila junto às outras crianças. Isso era o fim para a menina. Ela pensou: depois de tudo o que aconteceu comigo a professora não vai fazer nada para me defender? E se esse menino me atacar novamente? Quem vai me proteger?Porque a professora não se importou e me tratou como uma criança qualquer?


Pois é! Justo ela: a queridinha do papai, da mamãe, dos avós, tios e primos. Tão amada e agora tão maltratada. Ela não acreditava que havia passado por tanto constrangimento. Estava humilhada e magoada. Sabia que não era uma qualquer e pensou em jamais voltar para aquela fila e muito menos para aquela professora desalmada. Esperta, percebeu o portão da escola entreaberto e rapidamente fugiu por ele. Chorava muito, o peito doía, mas voltar para a escola era o que não queria. Ela queria voltar para a casa e contar tudo ao pai. Tinha certeza que ele bateria naquele menino malvado e mostraria à professora o quanto ela era amada.


Juliana pensou que sabia voltar pra casa. Atravessou a rua correndo com medo dos carros. Andou um quarteirão e não reconheceu mais onde estava. Começou a chorar aos soluços. Virou-se de frente a uma parede, encostou a testa e chorou sem parar. De repente, Juliana viu pela parede uma enorme sombra se aproximar. Assustada, virou-se e viu um homem enorme, sujo e com cara de mau.


Sem dizer nada, ele pegou a criança pela mão e a fez entrar pelo portão de ferro que ficava ao lado do muro. O lugar era estranho, tinha um cheiro forte e era escuro. Juliana tentou resistir, mas o homem a segurou forte e a arrastou. Ela chorou e gritou. O homem começou a ficar irritado, sentou-a em uma poltrona improvisada de pneus e disse:



 Pare de chorar. Não vê que estou tentando resolver um problema?


A menina não conseguiu engolir o choro e tremeu assombrada por causa do lugar escuro e do homem monstruoso. Severo, ele a encarou mais uma vez e somente depois pegou um copo do balcão sujo e foi até pote de água, que ficava em cima de uma cantoneira carunchada. Encheu o copo de água; em seguida, abriu um armário que ficava ao alto. Pegou uma colher e despejou algo branco no copo e a fez beber.


Ela não quis, mas o homem insistiu. Ela bebeu o líquido esquisito. Pensou que era alguma coisa que a faria dormir para sempre e que nunca mais iria ver os pais e os avós. O grandalhão ficou satisfeito e mandou-a esperar quieta. Ele saiu e trancou o enorme portão de ferro. Juliana olhava para o muro e o portão. Eram tão altos. Não havia meio de sair dali. Observou que onde estava só tinha pneus velhos e fedidos, panos sujos e ferramentas esquisitas. Ela sentiu que era seu fim. A cada minuto ficou mais agoniada.


Escutou passos e viu que o portão se abria novamente. Correu e escondeu-se atrás da maior pilha de pneus do lugar. O homem horrível a chamou várias vezes, mas ela não quis sair dali. Ele não era bobo; conhecia cada palmo daquele lugar. E não demorou muito, logo a criança estava em seu colo gritando aos prantos.



 Calma menina! Isso vai acabar logo.


Juliana não parava de pensar para onde aquele monstro a estava levando. Ela gritou e ninguém ouviu. Ela mexeu as pernas, agarrou as roupas do homem, mas era tudo em vão. Ele a levou para fora, a colocou em pé na calçada e recomendou:



 Chega de choro! Logo isso vai acabar.


Juliana estava quase perdendo os sentidos, mas ao longe avistou o pai saindo do carro. Finalmente, ele vinha salvá-la e ia bater naquele homem. Ela se viu livre e correu ao encontro do pai, que disse:



 Filha, o que é isso? Por que você fugiu da escola? Estive por lá e a professora estava procurando você por todos os lados.


A menina não quis saber mais de explicar coisa alguma. Desejou voltar pra casa e pra mãe. Agarrou-se ao pescoço do pai e até o sufocou. Ela viu que o homem estranho não havia fugido. Na verdade, ele se aproximou do pai. Novamente assustada, a menina ficou sem fala. O homem apenas estendeu a mão à seu pai. Ele era um velho conhecido. Eles se cumprimentaram e o pai agradeceu muito.



 Não precisa agradecer camarada. Quando vi a criança chorando, cheguei mais perto dela e li o nome no papel pendurado. Logo, reconheci seu sobrenome e vi que era sua filha. Pensei que, mais cedo ou mais tarde, você passaria aqui em frente procurando a menina.


Juliana estava salva. Porém, não quis saber de agradecer ninguém. Ela entrou no carro e sequer olhou para o rosto do bom homem. Desejou apenas voltar pra casa, ficar junto à mãe, ao seu cachorrinho de pelúcia e aos seus brinquedos.





Araraquara, 09/08/2011



Este conto foi publicado originalmente no antigo blog da Produção Literária.

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