15 de out de 2013

Contos selecionados no VII CLIPP


Os alunos Elias Araújo, da Produção Literária 2012, e Lígia Moscardini foram classificados cada um com um conto no VII Concurso Literário de Presidente Prudente (SP), realizado pela Secretaria Municipal de Cultura daquela cidade. A premiação será em publicação impressa, isto é, eles receberão quinze exemplares da antologia que será editada.

Produção Literária externa aqui seu orgulho de contar com mais premiações entre seus alunos e confere, ao mesmo tempo, seus parabéns aos trabalhos selecionados.

Seguem abaixo os contos:


A caçadora de poentes
Elias Araújo

Um dia tivemos uma surpresa tão inesperada quanto indesejada. Vovó sumiu no final de tarde, levando apenas uma máquina fotográfica velha, do século passado, de quando ainda era uma mocinha. Só soubemos o que levou porque tinha passado o dia todo remexendo em coisas velhas, guardadas no quartinho dos fundos. Vasculhou e deixou tudo com cara de depósito de lixo só para encontrar a máquina. O engraçado é que ela mantinha numa gaveta do guarda-roupa uns rolos de filmes que talvez nem funcionassem mais, de tão antigos.

Começamos a ficar preocupados duas horas depois do anoitecer, porque ligamos para um monte de gente e não a encontramos. Os vizinhos não a viram sair, e teriam notado, já que raramente ela o fazia.

Quando voltou, estava cantarolando e dando pulinhos. Parecia uma adolescente que escapara da vigia dos pais para se encontrar com o namorado. Por um momento nós nos olhamos, dando risinhos nervosos, achando que era aquilo mesmo, que vovó talvez tivesse encontrado um namorado. Aos oitenta e cinco anos!

Tomei a frente dos meus pais, tios e primos e fui me encontrar com ela do outro lado da rua. Dei-lhe o braço. Ela sorriu e agradeceu.

— Bisa, onde a senhora se enfiou? — perguntei, sorrindo, para não constrangê-la.

Atravessamos a rua com ela ainda sorrindo, sem se preocupar com os olhares da família esperando a resposta.

— Uai! — disse ela, em sua habitual e última expressão de mineirice que lhe restou. — Não fui muito longe. Só estava ali na Ponte do Lago Zero caçando um poente.

Pelos olhares que vi ninguém entendeu nada. Ela foi do sorriso de escárnio ao riso escancarado, como se fôssemos muito tolos por acreditar nela. Entretanto, insistiu:

— Meus amores, eu só estava tirando uma foto do pôr-do-sol, como o vovô e eu fazíamos antigamente. Vocês sabiam que a gente se conheceu na Ponte do Lago Zero?

Sabíamos, claro. Ouvimos a história alguns milhares de vezes desde que vovô foi conhecer o outro lado, como ela sempre dizia. Entramos com ela em casa e nos preparamos para escutar as mesmas palavras mais uma vez: não mudava uma vírgula, como se tivesse decorado um texto para o teatro. E ainda falava com tanta emoção do primeiro beijo que vovô lhe dera que sorríamos vendo os olhos dela brilharem.

Deixamo-la em sua casinha. Felizmente morávamos perto. E em qualquer problema poderíamos socorrê-la rapidamente. Mesmo assim, aceitei seu convite e passei a noite lá.

No dia seguinte, agiu como se nada tivesse acontecido. Passou o dia limpando a casa em seu passinho enrugado. Fui para a escola após o almoço. E quando voltei, vovó tinha sumido novamente. Esperamos pacientemente até ela aparecer, com a máquina pendurada no braço como uma relíquia santa do tempo. Fui ajudá-la novamente a atravessar a rua. E nem sei por que, afinal ela andara uns bons quilômetros até a ponte. Sozinha.

— Bisa, eu vou dar pra senhora a minha máquina digital! — exclamei ao examinar a máquina dela depois que ela mesma me explicou como funcionava, como colocava o filme e batia a foto olhando por aquele minúsculo retângulo de vidro e depois girava o botão pra avançar o filme. Fiquei de boca aberta. Nem quis experimentar. Felizmente minha geração nunca tinha visto aquilo. — Bisa, a minha máquina tem 12 megapixel, cartão de memória de 4 gigas e visor led de 5 polegadas: é muito melhor pra senhora ver a foto. E se não ficar boa, pode apagar e tirar outra mais bonita.

Ela ficou pensando, vi seus olhos vindo na minha direção bem devagar. E deu aquele sorriso doce que eu adorava.

— Filhinho, tirar a foto e apagar? E tirar de novo? Mas aí o momento único do poente vai ter passado.

Não entendi o que quis dizer, claro, mas insisti em lhe dar minha máquina digital. Aceitou, mas nos dias que se seguiram, a máquina ficou esquecida na cômoda do quarto enquanto ela ia caçar seus poentes com a velha Kodak e seu rolo de 24 poses. Um dia cheguei da escola quando ela estava saindo.

— Vai tirar foto de novo, Bisa? — perguntei, sorrindo. — O pôr-do-sol é o mesmo todos os dias!

— De novo, não, filhinho. — retrucou ela. — Faz tanto tempo que eu não vou caçar um poente na Ponte do Lago Zero! Senti saudades hoje. Você sabia que eu conheci seu bisavô na Ponte, bem na hora do pôr-do-sol?

— Não sabia não, Bisa. — disse eu, emocionado, ao perceber que algo não estava encaixado naquela antiga e forte engrenagem. — Me conte a história.

— Ai, filhinho, quando eu voltar, conto tudinho pra você. — ela falou e me beijou no rosto. Depois ficou me olhando. — Sabe que você é muito parecido com seu bisavô?

Vovó nunca mais voltou para casa. Mergulhadores procuraram por vários dias no Lago Zero e só nos trouxeram a velha máquina. Ao abri-la, descobrimos que ela nem funcionava mais e que vovó sequer tinha colocado pilhas. O filme de vovó havia acabado e não havia meios de rebobiná-lo.




A educação pelos dedos
Lígia Egídia Moscardini

— Mas por que então ninguém me avisou?

Voltei perplexa na escolha das aulas. O primeiro ano do Ensino Médio terá um aluno cego. Há anos que eu dava aula lá, e nunca havia passado por isso... Me disseram que foi por eu ser uma das professoras mais experientes. Mas me senti traída. Tinha era um medo dessa história de inclusão. Como é que eu vou fazer? Ele não vai copiar nada? Vai ficar jogado na sala? Tenho que tomar cuidado? Não faço a menor ideia.

No primeiro dia do bimestre, lá estava ele. Qualquer professor perceberia nele a vontade de estudar. Os óculos escuros e a bengala branca não eram suficientes para ocultar o sorriso que parecia entusiasmado em começar o Ensino Médio, na escola nova, com tudo novo. Sentou-se mais depressa que minha disponibilidade em colocá-lo na cadeira e, enquanto os outros colegas chegavam, me apresentei e falei um pouco sobre a disciplina. Logo me falou um pouco dele, que aprendera braille, que agora tinha a máquina de escrever, que não ia faltar mais nenhum dia, que a outra escola era um pouco negligente.

— Não conseguia escrever direito, os professores passavam a matéria muito rápido. Depois, me falaram esse ano que não tinha mais vaga.  Mas acho é que não foram com a minha cara. Daí, eu vim pra cá.

— Veio pra cá porque gostou mais?

— É, parece melhor. E me aceitaram matricular também. E outra, agora com a máquina de escrever em braile acho que não vou me atrasar mais com nada.

Senti um pouco de compreensão e de revolta. Porque eu também não sabia lidar com esse tipo de aluno, mas não era o caso de tentar alguma coisa, o mínimo que fosse? Disse para se acalmar, que nem eu nem outros professores seriam rápidos. Resolvi não encher tanto a lousa como de costume e algum colega lia tudo em voz alta depois para que ele anotasse. Parecia que acompanhava melhor a aula assim. Mas ainda me dava certa pena vê-lo com aquele sacrifício para anotar as coisas.

De uma classe a outra, ele me vinha muito em mente. Algumas vezes, o via escrever até na hora do intervalo. Numa dessas, parei para conversar:

— Lucas, mas você vai ficar aí, não vai aproveitar o intervalo, menino?

— É que eu tenho que terminar as equações de matemática.

— Equações? Mas com braille? Tem como?

— Ué, tem. Antes de eu aprender braile é que não tinha. Eu sempre ficava
de exame em matemática. Ou os professores me passavam direto, porque eu sou cego. E a máquina agora me deixa fazer tudo mais rápido.

— Você está certo em se empenhar... Bem, quer que eu te busque um lanche?

— Que isso, Dona Leda... Já fui e já voltei, porque precisava adiantar as coisas, fazer uns trabalhos aqui. E as provas estão aí, inclusive a da senhora, né? — Concluiu com o sorriso que ele próprio nunca poderia ver.

Era muita a vontade dele, apesar do problema que tem. Disse que precisava ir para a sala dos professores. “As provas estão aí, inclusive a da senhora né?” essa frase sempre me ressoava no inesperado, e me fazia voltar a ele.  Tanto que, já ministradas as aulas da turma dele, eu não me desligava. Precisava pensar: será que eu facilito a prova? Dou a mesma prova para ele? Pergunto oralmente?  Mas ele já era tão revoltado com certas atitudes, me dizia que não era surdo, que não era criança, que não era doente... É, para mim, seria mais uma prova de bimestre, apenas para compor uma das notas. Mas para ele seria bem mais do que isso. Era um ato de adaptação. De mérito. De semelhança com os outros. De superação. Quer saber? Em vez de xerocar as perguntas ou colocá-las na lousa, vou ditá-las oralmente, para todo mundo. E o Lucas vai responder em braille. E outra coisa: quem vai corrigir a prova dele serei eu.

Oito dias depois, vou com a folha de anotações das perguntas.

— Pessoal, sentem em carteiras distantes e silêncio, que eu vou ditar as perguntas. Além dela, vou dar um trabalho escrito e duas redações. Qualquer dúvida sobre as notas, podem me perguntar depois. Boa prova!

Mas não bastava garantir que Lucas escrevesse do mesmo jeito que os colegas. Pouco depois, um outro aluno estava decidido a criar caso, e levantou aos gritos:

— Professora, não dá! Não consigo fazer a prova com o barulho desse negócio! Difícil pra quem estudou, né? Deixa ele fazer prova oral em outra sala!

— Renato, não vou fazer isso.

— Se ninguém fizer nada eu faço.  Lá na coordenadora da escola.        

— Renato! A prova é para a turma. E é exclusivamente escrita. Só acato sua reclamação se você sugerir outro jeito de o Lucas escrever na prova dele. Fui clara?

Meio com raiva, ele se conformou. A classe esperava uma reação minha nesse sentido. Era também preciso mostrar que nos cabe olhar para o outro, não apenas em nossa individualidade. E que isso começa na escola. Além de que o Lucas precisava de mais segurança em minha aula e nessa tal prova que tanto o entusiasmava. Parecia, para ele, que era a primeira vez que faria uma prova “de verdade”. Foram entregues. Mas não era só. A do Lucas precisava ser corrigida, com o mesmo afinco e precisão do que as outras. Isso, confesso, ainda me deixava um pouco apreensiva.

— Mas como é que você vai corrigir isso, Leda?

— Eu não sei... Mas que ele fez em braille, fez. Não poderia deixar que fosse diferente.

Dias depois, enquanto seguia com o currículo, ia pensando nas possibilidades. Não tinha tempo nem dinheiro para fazer algum curso. Além disso, queria muito entender o que é que aquele aluno escrevia. E fui tentar, inspirada no próprio Lucas. Todos os dias, às cinco da manhã, busquei alguma coisa do sistema braille. Isso me tomou algum tempo de sono, mas não era para sempre. Não demorou tanto e já encontrava algumas pistas: há vários livros que ensinam braille. E são bem explicativos. E tem cursos interativos na internet. E não, não era o bicho-de-sete-cabeças que eu imaginava, embora exigisse treino. Na prática, uma substituição de caracteres, com sequencias lógicas, o suficiente para ler.  Enfim, demoraria bem menos tempo do que eu esperava! Um misto de alívio e entusiasmo tomou conta de mim. Enchia o papel com vários pontos em braille. Cerrei os olhos. E cada letra ia se formando na incrível distância entre um pontinho e outro e, entre os vários grupos de pequenos pontos, se formava letras, sílabas, palavras, frases. Um universo além de meus olhos. Em que nenhum detalhe poderia passar indiferente. Todos os meus sentidos dialogavam com aqueles pontos, a cada vez que trazia meu toque comungado em palavras.

Enfim, em questão de quinze dias, estava com todas as provas corrigidas. Lucas ficou com oito, e alguns colegas conseguiram uma nota maior que essa. Mas não era isso que eu via. Nenhuma era melhor ou pior. O fato é que eu vim com todas. Todas. De todos os alunos. Entendi que incluí-lo não era defender, dar algo mais fácil, negligenciar sua capacidade. Inclui-lo era deixa-lo igual. Com os recursos dele. Que o aluno, especial ou não, precisava de um meio de acordo com ele próprio, para que tenha seu espaço no todo. Além disso, entendi que ler poderia ser diferente do que ver as palavras. De que não era preciso necessariamente olhos para ver, enxergar, admitir, perceber, observar, sentir. Tudo isso significa ler, de alguma forma. Importante, afinal, em qualquer aula, em qualquer turma, para qualquer tipo de aluno. Admito, nunca imaginava o que a linguagem dos cegos pudesse me fazer enxergar.




Leia também de Elias Araújo:
- Dois momentos, conto premiado em São João da Boa Vista (SP);
- Dois ponteiros e alguns versos, poema premiado em Ribeirão Preto (SP); e
- A longa espera, miniconto produzido a partir de exercício em aula da Produção Literária 2012.

Leia também de Lígia Moscardini:
- Outdoor, poema visual selecionado no Mapa Cultural Paulista 2013/2014.

Confira o resultado do VII Concurso Literário de Presidente Prudente clicando aqui.

                

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