28 de out de 2013

O olhar, de Victor Costa

O olhar
Victor Costa

“Há quem não saiba dizer a verdade.”
                                                                                           É isso aí - Ana Carolina

Foto: Pâmela Lino
          
Caminhando a passos largos, observo a lua esquecida no céu. Esta “melancolia celeste” me aquieta a inquietude. Viro a última esquina antes de chegar a casa. Passo por um vendedor de flores gesticulando muito, agachado, conversando com duas crianças sentadas no meio-fio. Aparenta muita vivência pelo que diz e me faz refletir. Encosto-me ao muro e hesito em entrar. Agora o que eu mais queria era ser uma criança.

Retomo a coragem, depois de alguns minutos. Entro na casa. Ela está na sala, recostada na janela, de pé, alisando com as mãos seus cabelos brancos; o olhar pensante. Tento aproveitar sua distração e de súbito me livrar deste infortúnio, falar logo o que aconteceu e sair daqui correndo com todas as minhas forças, até as pernas não aguentarem, para o lugar mais longe possível, onde eu não presencie o seu sofrimento. Mas ela percebe minha presença e se volta para mim; anda, arrastando lentamente os chinelos carcomidos na minha direção: “Pensei que num vinha Já ia deitá Cê qué um café meu fi? Cê tá estranho Que aconteceu? Comé quele tá?”.

            Eu abro a boca, insisto, tento dizer algo, qualquer coisa que seja, um “oi”, um “adeus”, mas a voz não sai  e é melhor assim. Ela estende os braços e antes que eles alcancem meu corpo e me envolvam, saio rapidamente, cambaleando as pernas trêmulas e me agarro ao portão; vejo, do outro lado da rua, o vendedor de flores.

            Respiro ofegante. Tento abocanhar o ar que parece inexistir. Eu espio o homem e ele deixa as crianças, pega seu cesto, me faz um sinal, abaixa a cabeça e sai andando, como se me compreendesse mesmo sem saber o que acontece  nem eu sei. Tenho vontade de falar com ele, me abrir, lhe contar o que aconteceu naquele hospital, me expor completamente ao avesso para o crivo da sua velhice.

            Mas estapeio o rosto, com raiva, várias vezes, tentando espantar o medo. Por que eu? Por que eu tenho que dar a notícia? Por quê?! Com tanta gente na família Ela retornou para a janela e está observando minha covardia ali de cima, quieta. Entro na sala, novamente, pensando numa maneira de iniciar a conversa: “Sabe, quando eu estava vindo para cá, eu vi um senhor conversando com umas crianças, e” Ela interrompe. “Fi, cê acredita em milagre?” pergunta. E me paralisa com seu olhar: uma mistura de inocência, cansaço, esperança: como se enxergasse algo além de mim; além do que sua pouca visão lhe permite.

            Caio no sofá com um “nó” na garganta. Sufocado. Ela me tortura com esse olhar e eu correspondo, exasperado, sem reação, indefeso a ele e a mim. E aponto para a janela, disfarçando, tentando distraí-la. Mas ela não se mexe. Continua me olhando. A pergunta ainda ecoa dentro de mim, me provocando, querendo uma brecha para reverberar o que penso e o que sinto.

            Como dizer que a partir de hoje ela vai colocar apenas um prato na mesa; que vai dormir sozinha; que vai sobrar espaço na cama; que sua vida agora é um monólogo; que no seu vocabulário o pronome nós  ou nóis, como ela diz  deve ser riscado, esquecido?  Como?!

            Ela senta ao meu lado. Eu fecho os olhos; abaixo a cabeça; cerro os dentes, tentando segurar o choro  inutilmente.  Ela passa a mão quente, trêmula, no meu rosto: “O irmão dele aí fora Vei de longe como ocê Qué sabê do irmão fi Me conta comé quele ta! Pode falá!”.

            Eu olho para ela e as lágrimas são tantas que eu já não enxergo nada. Puxo o corpo magricelo dela, aperto-o com tanta força E me debruço no seu colo, molhando seu vestido fino. Ela, com dificuldade, segura minha cabeça, guiando meus olhos aos seus; pronuncia algo em meio aos soluços:

            “Fi, não precisa falá nada não. Eu já intendi.”



Premiado no 9º Concurso Francisco Beltrão de Literatura, 3º lugar na categoria conto.

Um comentário:

  1. Puxa! Que conto pungente! Muito belo. E maduro, vindo de um garoto tão jovem! Parabéns ao Victor.

    Elias

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