28 de abr de 2012

João da Cruz e Sousa

"Entre todos, distingue-se este filho de escravos, João da Cruz e Sousa, o Dante negro, nascido em 24 de novembro do ano de 1861, em Florianópolis, morrendo vítima de tuberculose, na mesma cidade, em 23 de março de 1898. Escreveu uma das obras poéticas mais altas e preciosas da literatura brasileira, apesar dos infortúnios (parteira do gênio), a morte de dois filhos e o enlouquecimento de sua mulher, Gavita. Conseguiu ultrapassar, pela obstinação, estudo e talento, a diferença de cor que lhe pesava e todos os obstáculos, sem dever nada a um Mallarmé ou Baudelaire, provando que o vento sopra onde quer."
Carlos Nejar, História da Literatura Brasileira,
publicado pela Editora Leya, em parceria com a 
Fundação Biblioteca Nacional, em 2011

Vida Obscura
Cruz e Sousa

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
E embriagado, tonto de prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que a cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!


Na luz!
Cruz e Sousa

De soluço em soluço a alma gravita,
De soluço em soluço a alma estremece,
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme contrita.

Dorme na paz sacramental, bendita,
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a Imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em cânticos palpita.

Sereia celestial entre as sereias,
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.

Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas Amplidões supremas,
Respirar, respirar em luz radiosa.

Obras de Cruz e Sousa:

Publicadas em vida

  • Tropos e Fantasias (1885, prosa poética)
  • Broquéis (1893, poesia)
  • Missal (1893, prosa poética)

Publicadas postumamente

  • Evocações (1898, prosa poética)
  • Faróis (1900, poesia)
  • Últimos sonetos (1905, poesia)
  • Outras evocações (1961, prosa poética)
  • O livro derradeiro (1961, poesia)
  • Dispersos (1961, prosa poética)


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