17 de abr de 2012

Saudade é o que fica...

A seguir, o texto de nossa colega Darci Barelli, escrito a partir da proposta de exercício de composição sobre o tema "saudades do cachorro e do gato".

Reparem que esta crônica foi esboçada utilizando o princípio sugerido por Deonísio Silva de se reduzir cada acontecimento a uma sentença; além disso, o princípio de se rascunhar utilizando sempre o tempo presente do indicativo, rapidamente reconhecível, manteve-se também no resultado final.


Saudade é o que fica...

Logo quando o cão chega à casa do seu novo dono, parece apreensivo, mas fica feliz quando vê uma criança.
Seu semblante é meigo e seu olhar triste e perscrutador.
Apresenta o cocuruto entumescido e logo necessita de punção. Se sofre, não aparenta; ferido, não se queixa; não chora.
Cresce em tamanho e esperteza, sensível e com afeto e carinho que demonstra todo dia.
Corre feliz ao encontro do seu dono, se remexe e se entorta todinho e lhe faz festinha.
Brinca durante anos com aquela que logo ao vê-lo o adota por filho e com ele divide o seu espaço.
Fica muito entristecido quando morre sua companheira e “mãe adotiva” e quando fareja que os seus vão viajar, descai-lhe o semblante.
Encontra-se sozinho naquele espaço e fica horas deitado num canto e fita o vazio.
Uma noite ele sai pelo vão do portão e ganha a rua. Ninguém vê – só percebem sua ausência horas depois.
Após dois dias ausente é encontrado num bairro bem distante de sua moradia.
Para alegrá-lo, seu dono adota uma bela e brincalhona cachorrinha que logo se tornam amigos e brincam no mesmo chão gramado, durante alguns meses.
Mas um dia… que ironia! Quando se encontram sozinhos, no mesmo chão que correm e brincam, comem “delicioso petisco” que um vizinho lhes atira por sobre o muro.
Horas depois, seus corpos retesados e ofegantes caem no chão com repetidas convulsões.
Ela, a primeira a cair, sucumbe de imediato; ele ainda é medicado e levado ao hospital.
Luta a noite toda como valente guerreiro, mas não resiste, pois não há antídoto capaz de reverter mal atroz: é letal a dose do veneno colocado no petisco e ofertado pela mão monstruosa de um covarde vizinho.
É ele enterrado no mesmo local e junto da sua derradeira companheira. Seu dono chora copiosamente.
E naquele espaço gramado, agora imenso e vazio, no seu cantinho se encontra aquele a versejar e a compor sobre suas belas vidas e seu triste e cruel fim.
Saudade é o que fica e agora em sonhos aparecem: ela, que brinca com a bolinha; ele, de semblante tristonho mas que se entorta todinho em seu olhar perscrutador, parece querer descobrir, penetrar o mistério profundo da dor.



Leia também o texto de Néia Souza  Saudades do cachorro e do gato –, composto a partir da mesma proposta.

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